Confinamento: observar o cocho evita desperdício e gera aumento da produtividade

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*João Marcos Beltrame Benatti é Gerente de Produtos Ruminantes e Feed da Trouw Nutrition

Muito se fala sobre manejo de cocho, mas poucos sabem da sua real importância. Por isso, destaco um pouco dessa ferramenta simples, mas que ajuda a prevenir diversos problemas no confinamento.

O manejo de cocho é importante para dar a diretriz do quanto fornecer de dieta com base no quanto sobrou no trato do dia anterior. Primeira recomendação: Se, quando estiver passando com o vagão notar muita comida no cocho, reduza a quantidade ofertada. Da mesma forma, se notar o cocho vazio, forneça mais alimento. Isso é importante para garantir que os animais consumam à vontade sem que haja sobra.

Mas não devemos observar somente as sobras. Atenção, sobretudo, aos animais.

Na imagem 1 (JBS, 2012) os animais estão esperando o alimento em pé, à beira do cocho. Esse é um caso de falta de alimento. Provavelmente, se isso for recorrente, os animais consumirão menos do que o necessário para o máximo ganho em peso. O desempenho será abaixo do ideal.

Na imagem 2, os animais estão calmos, mesmo com o trator pronto para fornecer alimento. Isso mostra saciedade. São animais que provavelmente desempenharão todo o seu potencial.

Imagem 1,Descrição: Descrição: C:\Users\Gafiera\Nutribeef\JBS\CLV 2011\DSC00208.JPGDescrição: Descrição: C:\Users\Gafiera\Nutribeef\JBS\CLV 2011\DSC00210.JPG Imagem 2

Com base nisso, podemos querer tomar a decisão de fornecer comida mais do que o necessário. Mas qual seria o problema de ter muita sobra?

O desperdício de alimento é o primeiro sinal que vem à cabeça, mas não é somente isso. Muita sobra aumenta a possibilidade de seleção pelos animais. Isso mesmo: os animais têm a capacidade de selecionar os alimentos. A seleção fica mais evidente quando o volumoso é seco ou com granulometria maior, caso do bagaço de cana in natura, palhada de cana, silagens mal picadas etc.

A imagem 3 mostra um cocho após a separação dos ingredientes pelo próprio animal (os dados foram retirados do experimento de doutorado de Benatti, 2014).

Descrição: Descrição: F:\Para outro computador\DSC00956.JPG,Imagem 3

Nas imagens 4 e 5, é possível ver as sobras de dois animais diferentes pela manhã antes do primeiro trato. A dieta ofertada para ambos foi a mesma, mas a consumida foi completamente diferente.

Descrição: Descrição: F:\Para outro computador\DSC00955.JPG,Imagem 4Descrição: Descrição: F:\Para outro computador\DSC00957.JPG,Imagem 5

 O animal que deixou a sobra (imagem 4) consumiu mais concentrado. É um animal que está com risco de acidose, mesmo que a dieta formulada seja eficaz. O animal que deixou a sobra (imagem 5) consumiu mais volumoso, o que provavelmente o fará ganhar pouco peso. Em ambos os casos, os animais estão consumindo quantidades inadequadas de volumoso, energia, proteína, minerais, vitaminas e aditivos.

A dieta formulada no caso acima tinha 10% de volumoso (bagaço de cana in natura) e 90% de concentrado. Ao final, foi feito cálculo da relação volumoso concentrado que efetivamente os animais consumiram. A dieta consumida apresentou relação volumoso concentrado de 5% de volumoso e 95% de concentrado, diferente do formulado e com alto risco de acidose.

Isso só ocorreu por terem possibilitado mais quantidade de sobra – em torno de 10% da quantidade ofertada (o dobro da recomendada).

A quantidade que esperamos que sobre é de 3 a 5% da quantidade fornecida. Assim, quando fornecermos 10 kg de dieta para um animal, deverá sobrar entre 0,3 kg e 0,5 kg. Por exemplo, com base no fornecimento de 10 kg por animal, em um lote de confinamento com 100 animais deverá sobrar entre 30 e 50 kg.

Só foi possível observar essa seleção, pois os animais estavam em baias individuais. Em uma condição de baias coletivas, a seleção ocorrerá, mas não será evidente, pois a seleção de um animal por volumoso compensará à de outro por concentrado. Isso só será notado quando avaliar o desempenho ou quando algum animal apresentar acidose.

Há também outro assunto que se fala muito pouco em confinamentos que é a saúde do fígado. Não estamos falando de abscessos hepáticos, mas sim do estresse metabólico que esse órgão sofre em condição de dieta com altas quantidades de concentrado.

Imagine um animal que estava prestes a entrar em confinamento consumindo uma dieta de capim de baixa qualidade na seca e suplemento mineral. O fígado desse animal está pequeno, pois está metabolizando pouco.

Quando esse animal começa a consumir dieta de confinamento o fígado precisa metabolizar mais. Assim o animal está ganhando acima de 1,5 kg por dia, mas seu fígado ainda não está pronto para essa carga adicional. É aí que o animal pode apresentar estresse metabólico. Veja a ilustração abaixo:

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Uma forma de auxiliar esse órgão a suportar a alta demanda de metabólicos é fornecendo Vitaminas do Complexo B. As vitaminas do complexo B atuam como co-fatores enzimáticos, auxiliando a metabolização pelo fígado. É importante saber que o animal só ganhará peso se o fígado metabolizar os compostos que chegam até ele.

As Vitaminas do Complexo B devem ser protegidas da degradação ruminal, caso contrário, os microrganismos do rúmen podem degradar esse componente.

Por fim, todo animal que sofre de estresse, tanto metabólico quanto de ambiente está mais susceptível a apresentar problemas sanitários. A imunossupressão é uma das principais causas do aparecimento de doenças no início do confinamento. Assim, melhorar as barreiras de proteção do animal para evitar que agentes patógenos criem força pode ser uma alternativa atrativa para a redução dos custos com medicamentos e mão de obra. O Zinco e o Cobre são dois minerais com ação direta nas barreiras de proteção do animal, tanto as barreiras primárias, como a pele e mucosas quanto a produção de linfócitos.

O manejo adequado de cocho reduzirá o problema, mas não será suficiente para impedir a seleção. Para dar segurança ruminal, temos de lançar mão do uso dos aditivos alimentares, como a monensina sódica e os tamponantes. A monensina tem papel fundamental no controle de acidose ruminal por ação nas bactérias ruminais; e os tamponantes auxiliam na neutralização dos ácidos e no aumento na passagem de líquidos pelo rúmen. Os tamponantes são mais efetivos quanto maior o risco de acidose. O potencial de metabolização do fígado do animal no início do confinamento é baixo, assim pode ser importante fornecer vitaminas do Complexo B protegidas da degradação ruminal para auxiliar na metabolização dos componentes. Dar aporte de Cobre e Zinco pode ser uma alternativa para reduzir problemas sanitários causados por imunossupressão.

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