Leite: sistema de produção não define qualidade

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Por Raquel Breitenbach

Garantir a higiene do leite e prevenir contaminações é umas das responsabilidades do agricultor. Além de proteger a saúde do consumidor, fornecer uma matéria prima de qualidade também garante maior remuneração ao agricultor caso a agroindústria tenha políticas de pagamento que beneficiam a qualidade. Atualmente, dois elementos são considerados importantes no que se refere à qualidade do leite: Contagem Bacteriana Total (CBT) e Contagem de Células Somáticas (CCS).

Considerando a importância dos processos e do manejo na qualidade do leite, o que nos propomos a discutir nesse texto é até que ponto o sistema de produção de leite adotado na propriedade define a qualidade do leite (medida a partir de CCS e CBT).

Para verificar essa questão, trazemos os dados de qualidade do leite para os sistemas de produção semi-confinado e confinado em Free-Stall nas Microrregiões de Passo Fundo e Erechim. A análise considerou 40 unidades de produção de leite (UPLs), sendo 20 que adotam o sistema produtivo de confinamento Free-Stall e 20 com sistema produtivo semi-confinado.

As unidades de produção de leite que adotam o sistema de produção confinado em Free-Stall, comparativamente as propriedades que possuem o sistema de produção de leite aqui denominado de semi-confinado, produzem em maior quantidade, têm maior produtividade (l/vaca/dia); são mais tecnificadas no que se refere à sala de ordenha e equipamentos de ordenha; repõem com mais frequência os insufladores (teteiras); utilizam em menor quantidade medicamentos preventivos de mastite; realizam maior controle econômico; mas têm menor qualidade do leite, medido por CCS e CBT.

Ainda, 65% das propriedades com sistema semi-confinado e 50% com sistema confinado têm áreas menores que 40 hectares. As propriedades que possuem Free-Stall produzem em média 24.563 litros de leite/mês e as com sistema semi-confinado 17.024 litros/mês. Demais dados comparativos, como estrutura, manejo, genética e higiene, estão na Tabela 1.

 

Tabela 1- Característica e perfil e qualidade do leite nas propriedades dos sistemas de produção de leite confinado (Free-Stall) e semi-confinado,

Nas propriedades com sistema de produção Free-Stall os resultados de CBT e CCS foram mais altos, ou seja, qualidade inferior que no sistema semi-confinado (Tabela 1). Também foi avaliado o preço médio do litro de leite comercializado pelos agricultores. Embora os produtores que possuem sistema semi-confinado tenham obtido resultados melhores na qualidade do leite (CBT e CCS), o preço recebido foi igual aos com Free-Stall. Isso ocorreu porque a remuneração no caso é feita pela qualidade e quantidade e, na análise dos dois sistemas, os fatores acabaram se equilibrando.

 

Ainda, a análise de correlação apontou que:

  • Nas propriedades em que o leite é a principal atividade econômica/comercial, os índices de CCS e CBT foram mais baixos (maior qualidade), independente do sistema produtivo;
  • Quanto menor o intervalo de troca de teteiras, menor a CBT, independente do sistema produtivo;
  • Tanto no Free-Stall como no semi-confinado, os produtores que fazem uso de algum produto e/ou vacina para a prevenção da mastite tiverem níveis de CCS menores, comparativamente aos produtores que não usam.

Embora pareçam ter maior profissionalização as propriedades que adotam sistema de produção em confinamento Free-Stall, alguns procedimentos básicos relacionados à qualidade do leite não estão recebendo a devida atenção, o que está resultando em qualidade inferior.

Portanto, o sistema produtivo em si não garante maior ou menor qualidade do leite, mas sim as ações de higiene e manejo adotadas no sistema.

É importante ressaltar que esses dados se referem às 40 propriedades estudadas e não podem ser generalizados para toda realidade dos sistemas de produção de leite no Brasil ou mesmo do Rio Grande do Sul.

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