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Produtores da Serra Gaúcha ganham sistema de monitoramento de pragas

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Uma parceria entre a Embrapa e a Emater/RS-Ascar com o apoio das secretarias municipais de agricultura de Bento Gonçalves, Farroupilha e Pinto Bandeira possibilitou que os produtores e técnicos ganhassem o Sistema de Alerta Mosca-das-Frutas, um serviço de monitoramento constante que avisa o produtor com antecedência sobre a presença do inseto na região. 

A rede de monitoramento nos principais municípios produtores já está atuando na safra 2017-2018, ao acompanhar a presença da mosca-das-frutas (Anastrepha fraterculus), principal praga que ataca a cultura. Os produtores recebem boletins semanais com informações sobre insetos coletados em armadilhas e orientações a produtores e técnicos para lidar com a situação encontrada.

“Detectar a chegada do inseto com rapidez traz mais segurança a toda a cadeia produtiva, pois evita a tradicional aplicação de produtos por calendário, garantindo a produção de frutas de qualidade”, declara o pesquisador Marcos Botton, que coordena a ação na Embrapa Uva e Vinho, localizada em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.

Trata-se da ampliação de um sistema de monitoramento que é utilizado há sete anos na região de Pelotas (RS), onde são produzidas 95% da fruta destinada à indústria de conservas. O sistema foi desenvolvido pela Embrapa Clima Temperado (RS), em parceria com o setor produtivo e instituições de ensino, pesquisa e extensão (veja detalhes no quadro no fim deste texto). Agora, o programa foi expandido e leva tecnologias de manejo para três municípios da Serra Gaúcha: Bento Gonçalves, Farroupilha e Pinto Bandeira, responsáveis por 80% do pêssego produzido na Serra. A cultura da fruta na região ocupa cerca de três mil hectares e, além de abastecer o mercado gaúcho, é vendido para o Paraná, São Paulo e região Nordeste.

Praga pode afetar produção inteira

A mosca-da-frutas ataca todas as espécies de frutíferas cultivadas na Serra Gaúcha, sendo a principal praga das frutas de caroço, como ameixa e pêssego, e pode levar o produtor a perder toda a sua produção se não for controlada. Os danos ocorrem em função de as fêmeas colocarem seus ovos nos frutos, que, além de permitir a entrada de microrganismos, desenvolverá a larva e provocará o apodrecimento do fruto.

Durante a safra que está sendo acompanhada, a ocorrência da mosca-das-frutas foi baixa, não sendo registradas infestações precoces nem picos populacionais significativos. “O sistema foi uma ferramenta fundamental para o controle da mosca, auxiliando no manejo correto, apoiando os produtores nas decisões e dando uma dimensão da infestação real”, avalia Ênio Todeschini, assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar de Caxias do Sul.

Monitoramento reduz incidência e inseticidas

Todeschini comenta que, devido ao inverno mais ameno, a expectativa era ter grandes infestações da praga, o que não ocorreu. Com o acompanhamento da situação no campo com as armadilhas, foi possível reduzir a aplicação de inseticidas para a mosca, sendo utilizado outras aplicações no controle da grafolita, uma outra praga que ataca as ponteiras e provoca o murchamento e secamento dos galhos, danificando a produção. “Ao fim da safra, haverá um melhor dimensionamento dos ganhos com o sistema, mas nossa expectativa é investir ainda mais na próxima safra, ampliando o número de armadilhas e os municípios envolvidos”, prevê.

Alexandre de Oliveira Frozza é agrônomo da Emater-RS/Ascar e acompanhou propriedades no Município de Bento Gonçalves e foi o principal porta-voz do Sistema de Alerta por meio de programas em uma rádio local. Em sua percepção, o acompanhamento da flutuação populacional da mosca-das-frutas nos pomares de pêssego e ameixa possibilitou que as recomendações para o controle da praga não se limitassem unicamente às pulverizações de inseticidas. A divulgação aos produtores envolveu recomendações técnicas como a isca tóxica e a captura massal, além de dicas para reduzir focos de infestação, como eliminar pomares abandonados e locais de descarte de frutos.

Evandro Faguerazzi é um dos produtores parceiros do projeto em Bento Gonçalves (RS). Em conjunto com seus pais e esposa, produz e comercializa pêssego e ameixa na Serra Gaúcha. Ele já fazia o monitoramento e ficou entusiasmado em participar da iniciativa a fim de reduzir o número de aplicações de produtos químicos na lavoura. “É muito interessante esse apoio para controlar a mosca, pois, muitas vezes, falta tempo para nós pequenos produtores fazermos esse monitoramento da forma correta, e esse projeto ajudou a decidir sobre a aplicação do produto na hora certa”, comenta.

Divulgação impressa, por rádio e WhatsApp

“As principais vantagens do monitoramento são evitar perdas provocadas pela mosca-das-frutas, utilizar o mínimo de produtos na plantação e fazer manejo mais sustentável”, pontua Botton.  O pesquisador da Embrapa comenta que o sistema de alerta ajuda na introdução de novas tecnologias como é o caso do emprego de iscas tóxicas, prática que deve ser ampliada nos próximos anos, visto que, em baixas infestações, muitas vezes evita a pulverização de inseticidas em cobertura sem ocorrer perdas na produção. A estratégia de produzir e divulgar semanalmente o boletim, relatando a situação da população de moscas, indicando as ações de controle bem como outras orientações relacionadas ao manejo da cultura, abriu um canal de comunicação com o setor. “Tanto o envio por WhatsApp, como na página do Sistema e o próprio programa de rádio são esperados e acompanhados semanalmente [pelos produtores]”, comenta.

Ao todo, já foram publicados mais de 20 boletins e 22 programas de rádio. Liderado pelo jornalista Felipe Machado, a edição sempre traz informações do Boletim com uma entrevista com técnicos envolvidos. Segundo o jornalista, a repercussão foi muito boa e muitos agricultores já entraram em contato para mais informações. “Diante da divulgação na Rádio, produtores procuravam a emissora em busca de mais esclarecimentos, e, consequentemente, encaminhávamos para a Embrapa e Emater. Ou seja, o retorno foi imediato e conseguimos cumprir nosso papel, prestar serviço de relevância aos ouvintes e agricultores da região com apoio dos técnicos envolvidos”, avaliou.

O boletim segue circulando até finalizar a colheita das cultivares tardias que são mais suscetíveis ao ataque do inseto. Para a próxima safra, a equipe planeja incluir no sistema de monitoramento também outra praga — a mariposa grafolita — e ampliar a participação dos produtores, que deverão ser capacitados e passar a fazer o monitoramento semanal, possibilitando assim o aumento da rede de armadilhas. “Nosso objetivo é obter informação sobre o comportamento da praga ao longo da safra, e dessa forma entender o comportamento da mosca na região, buscando métodos mais sustentáveis para a produção de frutas”, pontuou Botton.

 

Como funciona o Sistema de Alerta?

O Sistema de Alerta surgiu na safra 2010/2011 na cultura do pessegueiro na região de Pelotas. O monitoramento do inseto é realizado o ano inteiro em pomares de produtores parceiros. Um técnico percorre, no início de cada semana, as unidades de observação na região definidas no programa. Nelas foram instaladas armadilhas McPhail (do tipo bola), iscadas com proteína hidrolisada, um atrativo que captura com maior eficiência as moscas. O programa preconiza a instalação de uma armadilha por hectare, que são vistoriadas para contagem da mosca-das-frutas. Esse material é conduzido ao Laboratório de Entomologia, no qual é feita sua análise. Os dados apurados compõem o conteúdo dos boletins informativos.

O monitoramento feito com as armadilhas do tipo bola é importante para indicar ao produtor se a população da mosca está alta ou baixa. Sabendo o tamanho do problema, ele pode tomar a melhor decisão.

Se a população estiver baixa — detecção de até três moscas por armadilha a cada semana — deve ser feita pulverização por isca tóxica nas bordas do pomar. Se forem capturadas mais de três moscas por armadilha a cada semana, a população do inseto é considerada alta e a recomendação é a pulverização por cobertura sobre todo o pomar.

Em cada uma das unidades de observação, ou próximo a elas, há estações meteorológicas para acompanhamento de dados climáticos, uma vez que a incidência das moscas tem relação com as variações do clima. Os dados colhidos pelas estações, como temperatura e umidade do ar, chuva, umidade do solo e temperatura do solo alimentam o Laboratório de Agroclimatologia. Essas variáveis servem para estudos comparativos feitos pelo Laboratório, mas também ajudam a indicar as estratégias de manejo que devem ser tomadas pelo produtor.

Um sistema que deu certo

A decisão de criar o Sistema de Alerta surgiu depois da safra 2008/2009, na qual caminhões lotados de produção de pêssego foram perdidos na metade sul do estado em função do ataque da mosca-das-frutas. Muito dessa perda estava relacionada à retirada dos inseticidas com ação de profundidade da lista de agrotóxicos autorizados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para controle da mosca-das-frutas. Anteriormente, os produtores faziam aplicação por calendário e buscavam controlar os ovos e as larvas do inseto com produtos químicos de ação de profundidade. Porém, desde a nova legislação, o controle da praga passou a estar focado na fase adulta do inseto, sendo o produto aplicado principalmente quando o monitoramento indica maior incidência dessas moscas nos pomares. “Se há uma mosca no pomar, a recomendação é: use isca tóxica!”, observa o pesquisador responsável pelo Programa, Dori Edson Nava, da Embrapa Clima Temperado, que criou o programa.

Região concentra 95% do pêssego em calda brasileiro

Na região de Pelotas, a importância do Sistema de Alerta é grande, pois a cultura do pessegueiro é uma das mais expressivas cadeias produtivas, envolvendo também os municípios de Arroio do Padre, Canguçu, Cerrito, Piratini, Morro Redondo e São Lourenço do Sul. Atualmente, a cultura é conduzida em cerca de duas mil propriedades, de até dez hectares, envolvendo cerca de seis mil pessoas. O pêssego é processado em 13 indústrias que, juntas, produzem 95% do pêssego em calda do Brasil – uma média anual de cerca de 50 milhões de latas. Ao todo, as indústrias chegam a gerar cerca de sete mil empregos diretos e três mil indiretos.

Um dos grandes resultados do programa apontados por Nava foi promover a compreensão do produtor sobre o porquê da não possibilidade de registro dos produtos químicos para controlar pragas especificamente para o pessegueiro. Além disso, o cientista frisa a importância do grupo de discussão gerado a partir do programa, por meio do qual é possível conhecer os problemas da cultura e observar reivindicações do setor. “É a pesquisa, que conversa com o produtor, que conversa com a extensão; é a extensão, que conversa com a indústria; e é a indústria, que conversa com o produtor e a pesquisa. Atingimos um grau de maturidade entre as instituições”, elogia.

 

 

Evoluções do Programa

Há 30 anos, Volnei Mendez Natali vive na Colônia Santa Maria do Sul, na casa dos seus antepassados, datada no ano de 1939, a cerca de 40 km da área urbana de Pelotas. Há alguns anos o produtor vem se adaptando a outro cenário: retirada de produtos fitossanitários, especificamente para cultura do pessegueiro, da grade de licenciados pelo Ministério da Agricultura, adoção de novos hábitos e estratégias de prevenção e controle de doenças e pragas nos pomares e oscilações climáticas prejudiciais ao desenvolvimento da cultura.

Uma das formas de Natali enfrentar essas mudanças no manejo da cultura foi participar do programa Sistema de Alerta para Monitoramento e Controle da Mosca-das-Frutas na Cultura do Pessegueiro. Por meio de reuniões técnicas e dias de campo é possível conhecer o manejo adequado e prevenir doenças e pragas, além de acompanhar os Boletins Informativos do Sistema de Alerta, semanalmente.

O presidente do Sindocopel, Paulo Crochemore, diz que o Sistema de Alerta representa um diferencial para a indústria do pêssego, especialmente quando foram retirados os produtos químicos para uso pelo setor produtivo. “É uma ferramenta que auxiliou na recuperação das perdas em pomares e a melhorar a qualidade do fruto, pois havia muito pêssego contaminado que chegava à indústria e, por isso, muito desperdício”, lembra o proprietário de indústria da região de Pelotas.

Crochemore diz que há muito a se melhorar, mas com as mudanças o produtor de pêssego passou a atender as exigências de regulamentação de uso de produtos químicos, tendo índices muito baixos de frutos bichados. Ele diz que o programa também propiciou que os produtores se qualificassem em outras áreas da produção como a adubação do solo, adoção do sistema de irrigação, controle de doenças e uso de mudas de maior qualidade.  “A produtividade aumentou, mesmo enfrentando questões climáticas, passando de uma produção entre sete a dez toneladas por hectare para 20 ton/ha”, conta o representante das indústrias.

Já o presidente da Associação dos Produtores de Pêssegos de Pelotas (APPRP), o produtor Marcos Schiller diz que o envolvimento de um grande número de produtores do setor permitiu conduzir um trabalho de maneira mais limpa. “Começamos a observar e a identificar como a mosca entrava no pomar e como ela se comportava, daí aprendemos a adaptar nossa forma de manejo e a fazer outras indicadas pelo Programa”, comenta Schiller. Segundo ele, há propriedades que, atualmente, conseguem fazer 100% do controle do inseto-praga com o monitoramento e uso da isca tóxica, não utilizando mais as aplicações de cobertura de produtos químicos nos pomares.

“Muitos produtores conhecem o sistema e, a partir de sua experiência, outros começaram a participar do programa, utilizar as estratégias para controle da mosca-das-frutas e práticas de manejo preventivas para tratar outras doenças e fungos, que comprometem a qualidade da produção”, enfatiza o presidente da Associação.

“O programa tem como propor testes de eficiência de iscas tóxicas nos pomares e avançar no uso de parasitoides como controle de mosca-das-frutas por meio da instalação de biofábricas,” avalia Nava, da Embrapa. Segundo ele, já estão sendo executadas técnicas de criatórios de parasitoides na Unidade de pesquisa da Embrapa, em Pelotas, onde já estão sendo analisadas as colônias de parasitas nativos. Outra forma é associar o uso de machos esterilizados, para que, quando copularem com as fêmeas, não deem continuidade à prole, impedindo a infestação do inseto-praga.

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