Motivos para o crescimento da canola no Brasil

A geração de novos conhecimentos para o cultivo da canola tem estimulado a expansão da área de cultivo, com potencial para chegar a 500 mil hectares nas próximas décadas. Durante o Simpósio Brasileiro de Canola, realizado dias 13 e 14/09, na Embrapa Trigo (Passo Fundo, RS), foram apresentados 55 trabalhos científicos, além de discussões sobre o futuro da cultura no País.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Trigo, Gilberto Tomm, as primeiras experiências de cultivo de canola no Brasil exigiram grande esforço da pesquisa na adaptação de híbridos que atendessem as condições do ambiente brasileiro. Ele conta que, no ano 2000, a ocorrência da doença canela-preta quase extinguiu o cultivo de canola no Sul do Brasil, problema que foi rapidamente controlado com o emprego de novos híbridos resistentes: “O fungo canela-preta que ocorre no Brasil é diferente do agente encontrado nos outros países produtores; a bacteriose das crucíferas, velha conhecida em nossas lavouras, não causa problemas nos cultivos em países de clima temperado; geada na floração também é um problema só nosso, já que no hemisfério norte a canola é cultivada no período mais quente do ano, após o degelo da neve”, compara Tomm.

No Setrem (Três de Maio, RS), a avaliação na adaptação de híbridos de canola é realizada desde 2002 na área experimental que serve de base para a formação de estudantes na instituição. Segundo o professor Marcos Caraffa os ensaios têm contribuído para o aprimoramento das recomendações de cultivo, como a definição da melhor época de semeadura na região noroeste do Rio Grande do Sul.

Com o avanço tecnológico ao longo dos anos, foi possível aumentar a produtividade de 906 kg/ha (média 1980 a 1997) para 1.500 kg/ha (2016), resultado que pode explicar o crescimento da área de 12 mil hectares (2004), para mais de 57 mil hectares (2017).

No trabalho “O que dificulta o aumento da área de canola no Brasil?”, publicado pela Embrapa Trigo, baseado em entrevistas com 77 produtores rurais no Rio Grande do Sul, o principal motivo para cultivar canola tem sido a necessidade de rotação e diversificação de culturas. “O fator econômico aparece em segundo lugar como motivador na adoção da canola, porém o aumento no rendimento das culturas subsequentes também foi destacado pelos entrevistados”, explica o analista de transferência de tecnologia da Embrapa Trigo, Álvaro Dossa.

Os efeitos da rotação de culturas no aumento da produtividade de grãos foram avaliados pelo pesquisador da Fapa/Agrária (Guarapuava, PR) durante nove anos no Paraná. Foram realizados diversos experimentos com trigo, cevada, aveia, soja e milho em rotação com canola no sistema plantio direto. Entre os resultados apresentados no Simpósio, não houve vantagem significativa da rotação para a produtividade de canola, mas o sistema de rotação gerou incremento médio no rendimento de grãos de +6% na soja e de +32% no milho quando comparados à monocultura. “A canola tem um espaço importante para compor o sistema de rotação com produção e rentabilidade”, destaca o pesquisador.

Novos horizontes

Ainda concentrada na Região Sul, a canola começa a ampliar horizontes a partir da geração de novos conhecimentos da pesquisa. Em São Paulo, o estudante de mestrado da Esalq/USP, Daniel Grubert, está avaliando a viabilidade de consorciar a canola com a cultura de maior expressão econômica na região: a cana-de-açúcar. Os espaços entre as linhas da cana estão sendo cobertas com a canola. Entre os resultados de três anos de pesquisas estão produtividade de 100 toneladas de cana por hectare, acima da média na região, associado ao ganho de 1.400 quilos por hectare (kg/ha) de canola.

Na Universidade Federal de Uberlândia, o Grupo de Estudos e Pesquisas em Canola (GEPCA) foi criado em 2014, sob a coordenação da professora Flávia Nery-Silva, com o objetivo de gerar tecnologias para a expansão do cultivo de canola em baixas latitudes. Os resultados gerados estão possibilitando aos produtores da região maior segurança ao investir em canola como uma nova alternativa para cultivo de safrinha, na rotação com a soja e o milho. Os 12 alunos do GEPCA que participaram do Simpósio apresentaram 11 trabalhos de pesquisa voltados à avaliação de genótipos, controle de pragas e doenças.

Desafios

O painel “A pesquisa da canola no Brasil: áreas críticas e perspectivas para novos direcionamentos”, realizado em 14/09, reuniu as principais empresas de fomento da canola, além de representantes de 37 instituições ligadas à pesquisa. Entre os temas levantados, o tópico “cultivares” dominou as discussões.

Apesar de limitações como o, ainda, restrito grupo de produtos fitossanitários registrados para a canola (devido a área reduzida que não desperta o interesse da indústria de agroquímicos), o mercado de sementes dependente de importações e as dificuldades do produtor no controle de plantas daninhas, o aporte de novas tecnologias para o cultivo de canola podem gerar boas perspectivas para o aumento de área e a rentabilidade das lavouras nos próximos anos.

De acordo com a Abrascanola, a partir de levantamento junto às empresas de fomento à canola, é possível projetar uma área potencial para cultivo de 500 mil hectares no Brasil, isto representa quase dez vezes a área atual que totalizou 57 mil hectares em 2017.

Para o pesquisador da Embrapa Trigo, Jorge Gouvêa, novas empresas de melhoramento de canola têm visto o Brasil como um mercado promissor. Atualmente, a quase totalidade da área de canola cultivada no Brasil foi semeada com genótipos de três empresas obtentoras de sementes de canola, a Advanta, Atlântica Sementes e a Al Hight Tec, o que têm ampliado, nos últimos anos, a variabilidade genética dos híbridos de canola disponíveis no mercado de sementes.

No evento estiveram presentes representantes da Advanta, Atlântica Sementes e da obtentora de sementes alemã DSV, oportunidade em que relataram o interesse em lançar novos híbridos ou testar genótipos com potencial de adaptação no Brasil.

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