Leite e grãos: integração que dá certo

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Pecuária leiteira aliada à produção de grãos tem trazido excelentes resultados a uma propriedade rural de Não-Me-Toque/RS

Juliana Turra Zanatta

Luiz Carlos Schuster, produtor rural de Não-Me-toque/RS

A propriedade não é muito grande, próximo a 50 hectares. O que não é problema para o produtor rural Luiz Schuster, de Não-Me-Toque, Norte do Rio Grande do Sul. Apaixonado pela pecuária, o produtor fez de sua escolha pelo gado Jérsey um investimento de sucesso. Hoje, com 18 vacas leiteiras, a média de leite entregue é de até 11 mil litros mensais.

Trabalhando com o sistema de rotação de culturas – uma técnica para repor os nutrientes do solo e conservar o espaço agrícola – Luiz, sempre com um olhar futurista, identificou que a rentabilidade da propriedade poderia ser muito mais significativa se essa rotação desse espaço a outras plantações.

Foi aliando a produção de grãos com o manejo pecuário que ele descobriu uma alternativa de aumentar a produtividade de uma maneira bem simples. Há 30 anos, Luiz trabalha com a integração lavoura-pecuária e colhe os benefícios de juntar o potencial da soja, aveia e trigo com a produção leiteira.

 

A finalidade da ILP é o cultivo do solo durante o ano, fazendo com que haja incremento na produção de grãos e leite, diminuindo custos e aumentando produtividade.

Enquanto muitos pensam que o solo onde o gado pisoteia enquanto come pasto perde qualidade na hora de plantar outras culturas, seu Luiz está convicto de que é justamente o gado que faz a produção disparar. A prova disso são as médias colhidas nos últimos anos. Na safra 2015/2016, a colheita da soja chegou a 78 sacas por hectare. Neste último ano agrícola, o número subiu para 82. “A gente adota um manejo de data-limites. Por exemplo, no inverno, o gado pastoreia em uma área maior de 15 ha. Quando inicia o mês de outubro nós o retiramos do campo para dar um tempo da pastagem de inverno crescer e assim sobrar palha na terra”, explica o produtor.

O gado leiteiro também se alimenta de silagem de aveia branca e cevada – são cerca de 10 hectares destinados às culturas. Outra parte da área é usada na produção de feno e também para o pastoreio rotativo. “No verão a gente usa cerca de três hectares com grama Tifton para o gado de leite, sempre rotacionando em piquetes até fazer o giro. O resto da área é usada para os grãos”.

O rebanho é composto por 25 vacas, sendo 20 ordenhadas; 8 novilhas e 1 bezerra. Cada animal come diariamente 10kg de silagem, de 4 a 6kg ração, e uma quantidade variável de pasto Tifton, além de 80 litros de água. Por dia, cada uma produz de 20 a 25 litros de leite.

Para o engenheiro agrônomo Elmar Luiz Floss, o sucesso na integração lavoura-pecuária de leite é uma consequência de diversos fatores associados. Entre eles, destaca-se uma gestão técnica e administrativa cada vez mais moderna, que, ao mesmo tempo, busca o aumento da produtividade (por área e por vaca), a melhoria da qualidade do leite produzido, o fato de enfrentar a competividade internacional e obter a sustentabilidade (econômica, social e ambiental) do empreendimento. Segundo Floss, o mais importante é a rentabilidade da propriedade, que melhora a qualidade de vida da família do produtor e a mantém produzindo no meio rural.

Os dados da produção de leite em 2016 da família Schuster são a prova de que uma ILP bem feita é sinônimo de rendimento. Com 23 vacas em lactação, foram mais de 158 mil litros vendidos, com preço médio de R$ 1, 19, valor que gerou uma receita de R$ 193.188,00. O custo médio por litro foi R$ 0, 95. Juntamente com a venda de algumas cabeças de gado, o faturamento com a agropecuária alcançou R$ 244.771,00. “Muitos produtores acham que o gado tira da propriedade. Mas nem sempre é assim. Desde que bem manejado, o gado não tira, ele agrega”, explica o produtor. “Em termos de compactação, ele prova que não tem interferência negativa do rebanho leiteiro na área que também é destinada à outras culturas”, conta Kleiton Kissmann, médico veterinário da Cotrijal e responsável por acompanhar o produtor.

A integração

Floss explica que para evitar a compactação do solo e a perda elevada de forragem através do pisoteio é recomendado o pastejo rotacionado por meio da divisão da área em piquetes, assim como Schuster faz em sua

No sistema de piquetes, o produtor elaborou um corredor para que o gado possa transitar no deslocamento, sem danificar o pasto consumido posteriormente.

propriedade, mediante o uso da cerca elétrica e deixar os animais pastejando somente por algumas horas pela manhã e a tarde. “O tempo de permanência dos animais em cada piquete não deve ser superior a três dias, para que não seja afetado o rebrote. O ideal é deixar os animais durante um dia por piquete. O tamanho de cada piquete deve ser calculado em função da quantidade de pasto disponível, as necessidades de cada animal e o número de an­imais existentes. É importante deixar uma resteva de 7 a 10 cm acima do solo, para permitir um rápido rebrote”.

Para que haja um rebrote das plantas e produção de biomassa para não prejudicar a semeadura direta da soja em sucessão, os animais devem ser retirados da lavoura com uma antecedência mínima de 21 dias antes da dessecação. O agrônomo explica que, com esse rebrote, além da formação de palha na superfície, o crescimento das raízes reduz a compactação superficial do solo causada pelo pisoteio.

O pastejo

Por meio do manejo adequado do pastejo e do solo é possível a integração das culturas de verão com a pecuária leiteira (outono/inverno), em sistema de semeadura direta. “Na formação de pastagens de inverno, cultivada de forma isolada ou consorciada, as forrageiras de inverno apresentam alta produção de matéria seca (5 a 7 t/ha/ano) e alta qualidade nutritiva da forragem (digestibilidade superior a 60% e teor de proteína superior a 15%)”, explica o agrônomo Elmar Luiz Floss.

Segundo Floss, o primeiro pastejo deve ser realizado somente quando ocorrer uma disponibilidade de 1.500 kg/ha de matéria seca (800 a 1000 g de forragem verde por metro quadrado, cortada a 7cm acima do solo), que é obtida com a densidade recomendada (350-400 plantas/m2) e uma estatura das plantas de cerca de 30-40 cm. O tempo necessário para ser atingido esse rendimento varia com a cultivar/espécie utilizada, as condições climáticas e a fertilidade do solo, variando entre 40 a 60 dias.

Apaixonado pelo campo, seu Luiz investe com orgulho na propriedade. Há pouco tempo ele teve a ideia de aproveitar a água da chuva para irrigação das plantas e consumo do gado, afinal 87% do leite é composto de água. “Nós consumimos 56 mil litros de água por ano só na lavoura e com o gado leiteiro 1 milhão de litros d’água por ano. Essa é uma água de graça, sem custo e a distribuição é totalmente feita por gravidade. Como a nossa região é bastante beneficiada por chuva, a água é decantada e depois disso vai para seu destino”, explica o produtor que se sente grato por também estar ajudando a natureza. São sete tanques instalados na propriedade.

Para que a pequena propriedade tenha bons rendimentos, o veterinário explica que não existe segredo. “O jeito é fazer bem feito. Sempre que você estiver implantando uma cultura, fazer um manejo de nutrição, silagem, pastagem, tudo bem feito. Adubar conforme a necessidade do solo, realizar a análise para saber o que precisa colocar de nutrientes para a pastagem dar resposta”, completa Kleiton.