Colapso na armazenagem

O milho a céu aberto em Primavera do Leste, Mato Grosso. Foto: Grupo El Tejar
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Os grãos que movem a economia ficam parados em meio ao caos

 

 Redação Destaque Rural

Nos últimos anos, o Brasil deu um salto em relação à produtividade agrícola se comparado a países vizinhos como a Argentina, por exemplo.  De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os brasileiros bateram a marca de 186,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2015/16. Para a safra 2016/17, a estatal estima que a produção de grãos seja ainda maior: 237 milhões de toneladas. No entanto, pouco desse resultado foi traduzido em rentabilidade, isto é: lucro com a venda do que foi por meses semeado e cuidado até a colheita.

Às vezes, o que entra para o caixa dos agricultores é o suficiente apenas para pagar dívidas ou financiamentos. Quando muito, o dinheiro é o suficiente para quitar todas as despesas de dentro e fora da lavoura.

Existem diversos fatores que podem explicar o porquê de o Brasil, mesmo com o potencial agrícola, não aproveitar as oportunidades de lucrar. Um desses fatores é a armazenagem. Parece não ser verdade, mas o país que tanto produz não tem lugar para guardar. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), recomenda que a capacidade estática de armazenagem de um país seja igual a 1,2 vezes sua produção agrícola anual.  Para esta safra, que supera as 230 milhões de toneladas, o país só terá capacidade de guardar 158 milhões de toneladas de grãos. Ou seja, mais de 70 milhões de toneladas ficarão ao ar livre, sujeitas a ações do tempo e até mesmo roubos. Isto gera um encarecimento dos fretes e preços mais baixos pagos aos produtores. Um dos principais objetivos de armazenar o grão é manter a qualidade.

O milho a céu aberto em Primavera do Leste, Mato Grosso. Foto: Grupo El Tejar

Faltam recursos?

No Plano Agrícola e Pecuário 2017/18, lançado em junho pelo governo federal, as linhas de crédito voltadas para a armazenagem ligados ao PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns) estão entre as prioritárias. Com recursos de 1,6 bilhão e taxa de juros de 6,5%, os produtores interessados poderão financiar os recursos em até 15 anos.

Para os gaúchos, que possuem, além dos recursos federais, a opção de um Plano Safra estadual, a armazenagem também é prioridade. O Rio Grande do Sul, por meio dos três bancos estatais (Banrisul, BRDE e Badesul) vai liberar mais de R$ 3 bilhões em recursos para os produtores investirem no impulsionamento da produção agropecuária.

O secretário de Agricultura, Pecuária e Irrigação, Ernani Polo, durante a apresentação do Plano Safra fez questão de reforçar que o foco desta edição é disponibilizar aportes para a construção de silos e armazéns. “Enfatizamos aos bancos que, dentro do possível, disponibilizassem [dinheiro] para a armazenagem, porque hoje é um gargalo”, disse Polo.

O milho a céu aberto em Primavera do Leste, Mato Grosso. Foto: Grupo El Tejar

Armazenar para vender melhor

O vice-presidente da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA), Hélio Sirimarco, acredita que o problema da armazenagem é uma das grandes barreiras brasileiras que impedem o produtor rural de ter êxito na função. “A armazenagem adequada facilita a comercialização, o produtor pode esperar o preço que achar melhor e vender, se ele está capitalizado pode armazenar e esperar uma alta da soja, por exemplo, e vender quando for melhor”, explica o vice-presidente da SNA sobre a importância da armazenagem. Sirimarco acredita que, para o Brasil virar o jogo do desperdício, é necessária união. “O caminho é os próprios produtores se unirem para buscar a solução, se unirem às cooperativas e montar sistemas em que todos possam se ajudar na armazenagem”, argumenta. Ele ainda acrescenta que o Estado deve apenas fornecer os recursos e oferecer linhas de crédito com juros baixos para que assim o produtor rural, sozinho ou em grupo, possa articular a construção de silos e armazéns.

Para o pesquisador da área de grãos do Cepea/Esalq, Lucilio Alves, as dificuldades da armazenagem brasileira afetam a comercialização dos grãos, no sentido de forçar uma venda, em especial no período de colheita ou logo em seguida. “Como, sazonalmente, os preços tendem a ser menores nos meses de pico de colheita e disponibilidade interna de produto, as margens dos vendedores são pressionadas e reduz as capacidades de novos investimentos”, comenta o pesquisador. Alves ainda acrescenta que isso reduz o crescimento da oferta interna do produto.

O milho a céu aberto em Primavera do Leste, Mato Grosso. Foto: Grupo El Tejar

Solução não virá a curto prazo

O vice-presidente da Kepler Weber, Olivier Colas, comenta que a solução para o déficit da armazenagem brasileira não virá a curto prazo, mas sim de uma trajetória de longos anos, visto que isto engloba outros setores além do agronegócio, como a indústria, por exemplo. O segundo ponto para resolução do problema, na visão de Colas, é a permissão para o investimento. “Enquanto o custo do dinheiro for elevado no Brasil, para que se permita que o produtor faça investimento em armazenagem é necessário que o governo federal disponha de algumas linhas de financiamento com juros subsidiados”, comenta. Entretanto, para dispor desses recursos, o vice-presidente alerta que é necessário estar atento à situação fiscal do país.

Já Alves argumenta que “não há mistério” para resolver o colapso da armazenagem brasileira. “São necessários novos investimentos em infraestrutura de armazenagem ou formas de escoamento mais eficiente para regiões consumidoras, ou seja, novos aportes de recursos”, finaliza.

 

 

 

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