Sucessão familiar: desafio para a gestão rural

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Por Raquel Breitenbach

O tema sucessão familiar na agricultura tem se tornado central nas discussões relacionadas ao campo. Além dos debates informais, pesquisas no meio acadêmico vêm sendo conduzidas para compreender as dificuldades em torno do tópico. Isso ocorre, já que as implicações da dificuldade de permanência dos jovens no campo e da adequada transição de gestão dos estabelecimentos agropecuários são de cunho social e econômico.

Os resultados dos debates e pesquisas apontam um cenário preocupante de migração dos jovens do campo para a cidade e, em maior número, das moças. Como consequência, um processo acelerado de masculinização e envelhecimento da população rural.

De modo geral, alguns condicionantes têm auxiliado na justificativa da migração rural-urbana, destacando-se:

O processo de transferência de patrimônio entre gerações na agricultura implica em retirar do processo de gestão do estabelecimento as gerações mais velhas e, em contrapartida, visar a formação de um novo agricultor gestor. Nessa etapa reside um gargalo, uma vez que os filhos, na maioria das vezes, não são preparados para gerenciar a propriedade, bem como não recebem instruções e autonomia no processo de formação e sucessão. Esse erro gerencial por parte das famílias rurais faz com que muitos filhos só assumam a propriedade, do ponto de vista gerencial, quando os pais morrem. Nestes casos, o despreparo e, em alguns casos, a falta de identificação com o negócio da família pode ocasionar uma inadequada gestão, insucesso e/ou a venda da propriedade.

No caso da agricultura familiar, a sucessão rural abrange mais que a transferência do patrimônio material (terra, maquinários, equipamentos, instalações, etc.). Compreende também, a difusão do patrimônio sócio cultural e histórico. Tal patrimônio, que compreende o conhecimento guardado e transferido por gerações, a tradição local, os hábitos e demais características culturais, vai se perdendo com o tempo e, especialmente, com a falta de convívio e permanência do filho sucessor no campo.

Por outro lado, os jovens que permanecem no meio rural geralmente tem baixo nível educacional. Ou seja, ainda prevalece a ideia de que para continuar no campo e gerenciar uma propriedade rural, não precisa de alto nível de conhecimento formal. Esse contexto contribui para o insucesso gerencial das propriedades, uma vez que, independentemente do negócio que se gerencie, rural ou urbano, conhecimento é fundamental.

Tendo por base essa realidade, cabe salientar que o processo de migração do campo para a cidade, que vem acompanhado de externalidades negativas, pode ser minimizado a partir de fatores, ações ou contextos.  Alguns deles são citados a seguir:

Por fim, saliento a importância de superar a ideia ultrapassada de que o sucessor familiar deve ser homem. O que observamos nas pesquisas é que os pais não se opõem a ideia da filha permanecer no campo, desde que esta case com um agricultor e vá auxiliá-lo na sua propriedade. São raros os pais que vêem com naturalidade o fato da filha mulher assumir a gestão da sua propriedade enquanto sucessora. Esse pensamento reflete em ações ao longo de toda a vida da jovem moça, já que esta é menos estimulada e ensinada a dirigir um trator, a aprender acerca dos tratos culturais das atividades agrícolas, etc. Tais ações conjecturam nas escolhas das jovens e a masculinização do campo reflete na própria escolha dos jovens homens que desejam constituir família.

 

Referências

ABRAMOVAY, R. “Juventude rural: ampliando as oportunidades”, Raízes da Terra: parcerias para a construção de capital social no campo. Secretaria de Reordenamento Agrário do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Brasília – DF, Abril de 2005, Ano 1, nº 1. Online em: http://www.creditofundiario.org.br/materiais/revista/artigos/artigo05.htm. Acesso em 30/08/2015

REDIN, E. O Jovem Rural Conquistando o Seu Espaço: Um [re[olhar sobre as Questões Sociais. Revista Brasileira de Agroecologia, vol.4 nº2, 2009.

SPANEVELLO, R.; A dinâmica sucessória na agricultura familiar. Porto Alegre: UFRGS, 2008. Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008.

TROIAN, A.; SOGLIO, F. K. D. Jovens rurais entre a diversificação e o monocultivo: o caso de produtores de tabaco de Arroio do Tigre/RS. Cadernos de Agroecologia, v. 8, p. 1-5, 2013.

3 Comentários

  • Muito bom o texto, pois o assunto aborda um ponto crucial no processo evolutivo das propriedades rurais, principalmente nas de caráter familiar. Os problemas na sucessão familiar, não são uma peculiaridade do meio rural, são verificados também nas empresas familiares urbanas e em ambos os casos, limita o processo decisório dessas estruturas de produção, uma vez que imprime um hiato decisório ao longo do tempo, agravado pela citada falta de investimento educacional nas gerações sucessoras, o que dificulta a adoção de ações inovadoras que garantam a capacidade competitiva dessas estruturas produtoras (rurais ou urbanas). Bom tema.

  • Excelente observação Gabriel. Esse gargalo gerencial não é exclusividade dos estabelecimentos rurais. No campo o tema vem sendo discutido, talvez em maior proporção, também pelas consequências sociais e culturais da falta de sucessor nas propriedades familiares. Abs.

  • Esses “sucessores” precisam de apoio da Extensão Rural. educação informal, diversificação de atividades, gestão, acesso ao mercado. ..Mas extensão rural no Brasil não tem valor. …

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