Lição número um da comercialização: nunca conte com o clima

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*Frederico Schmidt

O planejamento da comercialização agrícola é uma das tarefas mais essenciais para a atividade e é provavelmente também uma das mais menosprezadas. Nessa safra estamos vendo mais uma vez o quanto não ter um bom plano de comercialização pode prejudicar um lucro que em determinado momento era garantido.

Tivemos nos meses de dezembro e janeiro movimentos bons de alta nos preços da soja e sem fatores climáticos favorecendo essa alta. O movimento era dado em grande parte pela boa demanda chinesa e pelas incertezas em relação ao clima na reta final da safra sul-americana.

Nas semanas recentes temos visto sucessivos aumentos nas projeções para a safra brasileira, o que tem pressionado fortemente as cotações. Além disso, na última semana o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou as estimativas de plantio de soja dos produtores norte-americanos e estima um aumento de cinco milhões de acres em relação ao ano passado. Não bastassem, os estoques finais de soja nos EUA foram revisados para cima. Tudo isso colocou muita pressão negativa nos preços e justamente no momento alto da safra no Brasil.

Resumidamente o maior responsável pelo preço no patamar atual de US$ 9,40 por bushel é o clima que foi favorável no Brasil e propiciou produtividades recordes. Que segurou os negócios esperando problemas climáticos ainda está esperando e é aqui que entra a lição principal para uma comercialização eficiente: nunca contar com o clima. Sabemos perfeitamente que um clima problemático tem capacidade de fazer os preços decolarem, mas também é sabido que não podemos contar com o imprevisível. Dentro da ideia de comercialização profissional, é preciso estar preparado para efetuar os negócios, comercializando a safra com retornos positivos mesmo em situações como essa, onde os preços estão mais baixos.

Isso é possível justamente se antevendo ao imprevisível. Em dezembro e janeiro cometei aqui exatamente esse ponto, onde notávamos que a maioria dos fundamentos apontava para uma trajetória de queda nos preços da soja, e isso só não ocorreria caso tivéssemos problemas climáticos, ou seja, era um momento bom para efetuar vendas necessárias; aquelas vendas que servirão para cobrir custos, para geração de caixa e/ou para capital de giro. Só seria prudente deixar estoque remanescente para o volume de grãos que estariam dentro dessa folga financeira, além dos custos e preferencialmente além até de uma margem de lucro necessária para perpetuar o negócio.

O que veremos a partir de agora será um volume considerável de estoques de soja, já que muitos tentarão postergar as vendas diante dos preços atuais e mais uma vez o imprevisível poderá demorar a acontecer, já que as primeiras indicações apontam um clima favorável para início de plantio nos EUA e também para a colheita na Argentina, apesar de alguns casos isolados de excesso de chuvas.

Enfim, não podemos chorar o leite derramado, precisamos olhar para frente. O planejamento agora deve levar em conta um bom período com custos de armazenagem e quebras já que uma melhora nos preços pode demorar um pouco. Mais uma vez não temos fundamentos apontando possibilidades de reação nos preços da soja. As maiores possibilidades se concentram nos campos climáticos e políticos, ou seja, os mais imprevisíveis que existem. Do passado fica a lição: planejar e comercializar as certezas, nunca as incertezas.

 

*Frederico Schmidt é Agente Autônomo de Investimentos pela Priore Investimentos e atua principalmente nos mercados de commodites agrícolas e câmbio. Nascido e criado no interior do Paraná está operando no mercado futuro de commodities desde 2007 através de instituições nacionais e internacionais  (frederico@prioreinvestimentos.com.br)

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