Pesquisa mapeia risco de reintrodução da aftosa em fronteiras

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Uma parceria franco-brasileira mapeou o risco de reintrodução da febre aftosa na fronteira do Brasil com o Paraguai, após o surto de 2005. O trabalho de modelagem matemática foi realizado pela pesquisadora Thaís Basso Amaral da Embrapa Gado de Corte (MS), com o apoio de duas especialistas de instituições francesas: Valery Gond, do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), e Annelise Tran da Maison de Sensoriamento Remoto em Montpellier. O documento foi publicado em edição temática da revista Pesquisa Agropecuária Brasileira (PAB) sobre as ameaças sanitárias à agropecuária. A segunda etapa da vacinação contra a febre aftosa no País segue por todo o mês de novembro. O mapeamento é parte da estratégia brasileira de conquistar o status de erradicação da doença, sem a necessidade de vacinação.

O grupo inovou ao adotar uma metodologia inédita no País chamada de análise multicritério difusa para tomada de decisões em grupo, para determinar as áreas de risco de introdução da aftosa na fronteira. “A metodologia é inovadora e nunca utilizada no Brasil para esse tipo de análise e traz uma nova abordagem que pode auxiliar políticas públicas na erradicação da aftosa”, afirma Thaís Basso. Luciano Chiochetta, diretor da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal de Mato Grosso do Sul (Iagro), informa que há estudos em andamento no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) sobre avaliação da situação de todos os estados para a definição de uma estratégia para o avanço do status sanitário do País. “Existe também a necessidade de investimento em tecnologia de informação e sistemas de monitoramento utilizando o georreferenciamento para direcionar as ações de defesa sanitária animal”, declara Chiochetta.

Basso explica que o mapeamento é resultado da análise de variáveis combinadas e, posteriormente, é cartografado, a partir do uso de um software de sistemas de informação geográfica. “Para isso, contamos com oito expertises de organizações públicas e privadas, especialistas em sanidade animal, que listaram possíveis fatores de risco e os classificaram por prioridade”, conta. Localização da propriedade, tráfego de animais, distância da fronteira e locais de concentração bovina (leilões e exposições), densidade animal e tipo de fazenda foram alguns fatores considerados. Paralelamente, construíram-se quatro cenários: com poucas variáveis de risco, com metade, com muitos e um que contenha a maioria desses itens. A análise oferece um índice de risco da região, tornando-a mais vulnerável ou não, visível em mapas.

O estudo foi realizado nos municípios fronteiriços sul-mato-grossenses de Porto Murtinho (norte), Ponta Porã (centro) e Mundo Novo (sul), considerados como referência, e os mapas mostraram que o risco de uma reintrodução é baixo, mas há diferenças. “Locais com maior trânsito de animais e próximos a fronteiras foram avaliados como mais vulneráveis e caso houvesse uma ação de defesa sanitária, ela deveria focar esses locais”, revela Basso. Segundo Chiochetta, estados em fronteira exigirão estratégias específicas de vigilância quando se alterar o status sanitário do País.


Áreas vermelhas indicam maior risco de reintrodução da doença

O impacto da doença em Mato Grosso do Sul
Mato Grosso do Sul tem duas cidades entre as cinco com o maior rebanho bovino do País, Corumbá e Ribas do Rio Pardo, de acordo com a pesquisa Produção da Pecuária Municipal (PPM) 2015, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estado, no ano passado, se manteve como o quarto maior produtor de bovinos do Brasil, atrás de Mato Grosso (1º), Minas Gerais (2º) e Goiás (3º). Por isso, não é difícil deduzir o impacto negativo do surto de aftosa ocorrido em 2005.

O estado tem uma grande extensão territorial em fronteira com o Paraguai e a Bolívia, são 700 km de fronteira seca. “Esse trecho possui alta vulnerabilidade, principalmente pela existência de elevado número de estradas vicinais, dificultando a atuação das equipes de campo; e a existência de um grande número de aldeias indígenas e assentamentos rurais na faixa de fronteira, onde há trânsito informal de animais entre as propriedades”, alerta Chiochetta. O estudo da Embrapa permite detectar essas áreas com potencial de risco e integra as medidas de vigilância. “É possível analisar diferentes cenários desde o mais sensível até o mais específico, utilizando como base o banco de dados gerado pelo Iagro para realizar o monitoramento das áreas”, esclarece a pesquisadora Thaís Basso.

Luciano Chiochetta relata que após o surto, a Agência Estadual priorizou a recuperação do status sanitário do estado e estabeleceu diversas ações: georreferenciamento de todas as propriedades na faixa de fronteira; controle de trânsito dos animais; monitoramento de estoque efetivo de rebanhos das propriedades por meio da identificação individual de bovinos e bubalinos; vacinação contra febre aftosa supervisionada pelo Serviço Veterinário Oficial em 100% das propriedades; vigilância ativa em estabelecimentos rurais considerados de maior risco; e monitoramento soro epidemiológico para circulação viral e eficiência vacinal na faixa de fronteira. As iniciativas executadas pela Iagro, com direcionamento e apoio do Mapa, são recomendadas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) como uma condição para que Mato Grosso do Sul tivesse seu status restituído, observa o chefe do serviço estadual de Saúde Animal da Superintendência Federal de Agricultura (SFA/MS), Elvio Cazola.

Atualmente, considerando a efetividade das ações adotadas para a recuperação e manutenção do status sanitário, ocorreram algumas mudanças nos procedimentos, porém, algumas medidas foram mantidas, como condição para manutenção do status, como a identificação individual dos bovinos e bubalinos, segundo informa Chiochetta. Elvio conta que, a partir de 2008, em uma ação conjunta entre os países do Cone Sul, com apoio técnico do Centro Panamericano de Febre Aftosa (Panaftosa), o Brasil participou na Zona de Alta Vigilância, hoje Zona de Fronteira. “Esse foi um modelo de vigilância veterinária ativa, longitudinal, visando à detecção precoce e ação imediata em caso de reintrodução do vírus na região”, conta.

Futuro da aftosa e suas pesquisas
Este ano, o Ministério da Agricultura estima que 150 milhões de bovinos e bubalinos sejam imunizados, na maioria dos estados. O rebanho brasileiro consome 350 milhões de doses por ano. A vacina, desenvolvida pelo Panaftosa está no mercado desde 1989 e a perspectiva do status livre de vacinação não se limita ao Brasil, de acordo com o coordenador de zoonoses do Panaftosa, Julio Pompei, centro científico da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele assegura que a América é único continente que pode ser livre de aftosa nos próximos cinco anos. Hoje mais de 100 países registram ocorrências da doença no mundo.

Entre as medidas em andamento está a criação de um banco de imunógenos voltado a eventuais focos. “Se você tirar a vacinação, seu rebanho ficará sem imunidade e precisamos de uma saída emergencial, caso ocorra. Um banco de antígenos exige operação, sede, manutenção e, claro, investimento”, atesta Pompei. Outra prioridade é o apoio à Venezuela quanto ao reconhecimento do seu programa de aftosa e ao Suriname como área livre, processos realizados junto à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). Além do aperfeiçoamento de testes de diagnóstico rápido e circulação viral, capitaneado pelo Panaftosa. As iniciativas envolvem técnicos de entidades de vigilância, fiscalização, pesquisa e políticas públicas dos países pan-americanos.

Para Pompei, o maior desafio brasileiro não é a vasta fronteira, mas a interdependência das regiões. “Você pode fechar o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, mas, se São Paulo estiver aberto para exportação, isso é um risco”, diz. Ele enfatiza que para se enquadrar nas normas exigidas pela OIE, o País precisa cumprir requisitos técnicos que passam por vigilância sanitária e controle eficiente. “É importante analisar o custo-benefício da medida, os prós e contras e, para isso, o consenso é fundamental”, afirma. Com a eventual suspensão da vacinação, Pompei apresenta o cenário de vigilância passiva, atenta a qualquer ocorrência suspeita; e ativa, com controle rigoroso de animais e amostragem sorológica para aferir a circulação de vírus.

Entre os custos, Elvio Cazola da Superintendência do Mapa em Mato Grosso do Sul indica o fortalecimento da estrutura dos serviços veterinários oficiais (aquisições, contratações e manutenção) e de vigilância (capacitações), investimentos e ações para melhoria da participação comunitária (educação sanitária), manutenção do cadastro (rastreabilidade), gastos com o surgimento de novos eventos sanitários, dentre outros. Mas os benefícios chegariam pela redução em gastos com vacinas, diminuição de perdas de carcaça e de produção pela vacinação, melhorias na qualidade e confiabilidade dos serviços veterinários e dos programas sanitários, além dos profissionais de defesa sanitária animal e a abertura de novos mercados e melhores preços de venda.

A análise de risco feita por Thaís Basso enquadra-se na modalidade de vigilância ativa. O coordenador do portfólio de Sanidade Animal da Embrapa, Flábio Ribeiro Araújo, ratifica que esse tipo de abordagem será extremamente necessário à medida que o Brasil tiver mais áreas livres sem vacinação e o tema é prioritário no escopo da Empresa. Para ele, o trabalho de Basso identificou justamente hot spots, nos quais a doença pode ocorrer. É antever um problema.

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