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Desafios da Gestão Rural / Raquel Breitenbach

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Por que é diferente, complexo e desafiador gerenciar uma propriedade/empresa rural?

 *Raquel Breitenbach

Já é de conhecimento da maioria dos agricultores que a “ordem do dia” é: gerencie sua propriedade rural como uma empresa. Com a inserção do setor rural na complexidade do Agronegócio, o agricultor necessita cada vez mais encarar a gestão com profissionalismo.

Todavia, para que isso ocorra, o agricultor também precisa ficar atento para as particularidades da empresa rural, tornando-a distinta das empresas de outros setores. Portanto, quais os primeiros aspectos a serem considerados ao administrar uma unidade de produção agropecuária?

Primeiramente, destaca-se que a própria estrutura da empresa rural é diferenciada, uma vez que: geralmente são empresas de origem e gestão familiar; têm a sucessão familiar como dinâmica dominante, ou seja, o circuito econômico da empresa é assinalado por transmissões de herança; têm baixo controle sobre a maioria dos fatores de produção; trabalha com linhas de produção vivas (animais e vegetais); tem a terra como fator de produção importante e fundamental; e, as atividades desenvolvidas são espalhadas pelas áreas da propriedade.

Além disso, existem particularidades das atividades agropecuárias, as quais tornam as ações gerenciais nas propriedades rurais um desafio. Destacam-se as principais:

  • A renda do produtor é variável e incerta: Decorre da instabilidade na produção, produtividade e nos preços dos produtos agropecuários. Independentemente da tecnologia que o agricultor faz uso, a produção e produtividade sofrem a interferência do clima. Já os preços, dependem do mercado interno e externo. A tendência é que na safra estejam mais baixos do que na entressafra. Porém, é na safra que o agricultor geralmente demanda de recursos para pagar custeio das lavouras;
  • Opções de produção e de cultivo são regionalizadas: O clima, infra-estrutura, bem como condições de mercado regional, fazem com que as possibilidades de alguns cultivos concentrarem-se em regiões específicas;
  • Atividades produtivas sujeitas a adversidades climáticas: Em decorrência disso, os riscos assumem proporções maiores no campo;
  • Dificuldade de se obter produtos uniformes (tamanho, forma e qualidade): Implica em custos maiores com classificação e padronização do produto;
  • Perecibilidade dos produtos: Mesmo após a colheita, a atividade biológica dos produtos agropecuários continua em ação, o que reduz a vida útil dos mesmos;
  • Parte do processo produtivo se desenvolve independente da existência ou não do trabalho: O agricultor não necessita estar o tempo todo trabalhando nas atividades produtivas, mesmo assim, as plantas e animais continuam se desenvolvendo, pois não dependem sempre e diretamente do trabalho do homem;
  • A maioria dos produtos produzidos nas unidades de produção agropecuárias tem a característica de commodities: São produtos produzidos por muitas propriedades, que têm escala produtiva baixa e, consequentemente, baixo poder de barganha;
  • A oferta da maioria dos produtos é estacional, somente em determinados períodos do ano: Isso prejudica o fornecimento contínuo dos mesmos, bem como em quantidade e qualidade que atendam as necessidades dos consumidores;
  • Defasagem temporal: Período compreendido entre o momento que é realizado o investimento em determinada atividade até a ocasião que essa atividade começa a dar retorno financeiro. Na maioria das atividades o agricultor investe e tem custos de produção por meses ou anos até a primeira comercialização. Exemplificando, são em média quatro meses para soja, dois anos e meio para bovinos de corte, chegando a sete anos para silvicultura;
  • A produção agropecuária é um processo continuado, estando os preços/custos dos produtos favoráveis ou não: O agricultor tem terra, maquinários, equipamentos e o saber fazer agrícola. Caso tenha preços desfavoráveis ou custos altos em determinada atividade agropecuária, não deixa de produzir, pois têm custos fixos, como depreciação de bens, que existirão, estando produzindo ou não. Além disso, muitos agricultores desenvolvem suas atividades pela identificação com a mesma, o que vai além das questões financeiras;
  • A agricultura familiar, especialmente, considera outros fatores na tomada de decisão que não só financeiros e econômicos: Os objetivos do agricultor familiar é manter a reprodução familiar.

Essas características, que são próprias do setor e das atividades agrícolas, interferem no desempenho da empresa rural. Geralmente tornam o negócio mais complexo e ariscado e o resultado disso é a dificuldade de planejamento financeiro do agricultor. Portanto, além de gerenciar essas incertezas, o principal desafio da gestão rural é colaborar para que as empresas rurais consigam se renovar continuamente. Para tanto, novas escolhas estratégicas precisam fazer parte das ações gerenciais.

* Raquel Breitenbach é Doutora em Extensão Rural e Professora do IFRS – Campus Sertão

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