Como evitar perdas na colheita da canola

Foto: Paulo Ernani Ferreira
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A colheita da canola está avançando na Região Sul, com produtividades que têm animado produtores e assistência técnica. Contudo, a colheita é a fase mais crítica da cultura, que exige cuidados e decisões acertadas para evitar perdas no rendimento de grãos que podem comprometer mais de 30% do resultado final.

No Paraná, a Pordini Alimentos fomenta uma área de 4.500 hectares (ha) de canola neste ano e a expectativa é superar a média de rendimentos de 2015, que ficou em 1.850 kg/ha. A colheita em estágio avançado tem mostrado bons rendimentos no norte do Estado (2.480 kg/ha) e no centro-sul (1.700 kg/ha). As primeiras geadas do ano ocorreram em abril, atrasando em mais de 20 dias a semeadura. A cultura também sofreu com uma segunda geada um mês depois, afetando a floração. “Tínhamos como certo a morte das plantas pela geada, mas a canola resistiu e floresceu novamente”, conta o representante da Pordini, Sebastião Hollandini.

Segundo Hollandini, a variação na média de rendimentos é muito grande, de 1.000 kg/ha a 2.500 kg/ha. “Além de fatores climáticos, percebemos que a experiência do produtor no cultivo também tem impactado nos resultados. Por exemplo, produtores após o terceiro ano de cultivo geralmente ultrapassam os 2 mil kg/ha”.

No Rio Grande do Sul, de acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), a área de canola no Rio Grande do Sul cresceu nos últimos cinco anos entre 10 a 15% ao ano. Em comparação com 2015, o crescimento foi de 12% no Estado. No Brasil, a CONAB contabiliza pouco mais de 47 mil hectares, sendo 87% no RS. “O cenário de preços competitivos, equiparados à soja, estimula os produtores a ampliarem o cultivo e investir em tecnologia”, afirma o Presidente da Abrascanola, Luiz Gustavo Floss.

Além do crescimento da área e os altos preços no mercado gaúcho – a saca de 60 kg de canola está cotada entre R$ 70 e R$ 80 – o que mais chamou a atenção foi a expectativa de aumento de produtividade divulgado pela CONAB: o rendimento de grãos deverá crescer 25% nesta safra, favorecido pelo clima e pela experiência do produtor. A produtividade média esperada é de 1.500 kg/ha.

Para garantir que os resultados projetados se tornem realidade no campo, é fundamental planejar a colheita da canola, etapa considerada crítica no cultivo, quando pequenas falhas podem acarretar grandes perdas no rendimento final de grãos. “Ao contrário dos principais cultivos de grãos a maturação da lavoura não acontece de maneira uniforme, ou seja, nem todas as síliquas se formam e amadurecem ao mesmo tempo, o que requer atenção para determinar o ponto correto de colheita. Assim, produtores com mais experiência no cultivo de canola ou que contam com a assistência de técnicos mais especializados, tendem a obter produtividades mais elevadas, seguindo uma curva de aprendizagem crescente”, explica o analista da Embrapa Trigo, Paulo Ernani Ferreira. Segundo ele, produtores que cultivam canola há mais de três anos, geralmente atingem de 1.800 a 2.500 mil kg/ha.

Na canola, a colheita antes do ponto ideal interrompe a formação e o enchimento de grãos, limitando o potencial de rendimento. Ainda, a colheita prematura tende a aumentar o teor de clorofila do óleo, aumentando os custos industriais com clarificação e o percentual de descontos na comercialização.

Se a colheita atrasar, chuvas e ventos fortes podem abrir as síliquas derrubando os pequenos grãos de canola no solo, além do risco do ataque de fungos, insetos ou tombamento de plantas.

Qual a melhor forma de colheita?

As operações de colheita da canola são realizadas de forma mecanizada, basicamente com as mesmas máquinas e implementos agrícolas empregados para os cultivos de soja, milho e trigo, com pequenas adaptações, sobretudo quanto a vedação dos equipamentos de colheita e de transporte.

Em qualquer forma de colheita, o principal cuidado é identificar corretamente o momento mais adequado para entrada na lavoura. A cor dos grãos é o melhor indicador, já que os grãos secam antes das hastes, caule e demais partes da planta. A recomendação é verificar a cor dos grãos localizados no topo do caule: quando mais da metade dos grãos passarem da cor verde para marrom ou preto, as plantas atingiram o ponto de maturação fisiológica.

A identificação do melhor momento de colheita exige monitoramento diário da umidade, já que a escolha do manejo de colheita pode variar em função do teor de umidade dos grãos.

Os produtores do Sul do Brasil têm utilizado três diferentes formas de colheita da canola: colheita direta, dessecação química ou corte-enleiramento.

Colheita Direta

De acordo com o professor da Universidade de Passo Fundo, Walter Boller, a colheita com corte direto apresenta o menor custo, já que se processa em uma só operação, com as mesmas máquinas utilizadas para a colheita de cereais de inverno ou soja.

Neste tipo de operação, a colheita deverá iniciar quando a umidade dos grãos estiver em, no máximo, 18%. Depois os grãos deverão passar pela pré-limpeza e secagem o mais rápido possível até atingir os 10% de umidade, base de referência para a comercialização.

Um dos inconvenientes da colheita direta é a necessidade de regular a colhedora várias vezes durante o dia, pois as variações de temperatura alteram o teor de umidade da palha e dos grãos. As perdas podem chegar aos 10% se a regulagem ou as peneiras não estiverem adequadas.

Veja abaixo algumas dicas para o melhor resultado na colheita direta:

  • A colheita deve começar pelas áreas livres de plantas daninhas para evitar a disseminação de sementes de invasoras;
  • Para evitar a debulha na plataforma, a indicação é consultar o catálogo do fabricante da máquina, mas, eventualmente, a retirada do arco divisor da lateral da plataforma pode reduzir perdas por debulha;
  • Vedar orifícios nas colhedoras, como a base dos elevadores ou caçambas, utilizando fita crepe ou silicone;
  • Uma adaptação realizada ao prender uma mangueira de meia polegada (1/2″), com os próprios parafusos da colhedora, em toda a largura da plataforma de corte, logo atrás das navalhas, tem se mostrado eficiente para reduzir as perdas causadas pela queda de grãos ao solo devido à inclinação em direção à barra de corte;
  • Usar peneiras apropriadas (2 a 4 mm);
  • Molinete: reduzir o número de “aspas”, recuar e ajustar a altura do molinete para que só as “aspas” se introduzam no cultivo. Ajustar a velocidade para que seja pouco superior à de deslocamento da colhedora;
  • Altura da barra de corte: deve cortar as plantas logo abaixo dos primeiros ramos produtivos. Isto é, se deve reduzir tanto quanto possível o volume de caules colhidos, os quais aumentam o risco de embuchamento da colhedora, o consumo de combustível e tendem a aumentar a umidade e impureza da massa de grãos;
  • Caracol: ajustar a velocidade e a altura para que não causem muita debulha de síliquas;
  • Velocidade do ventilador: regular para que permita a limpeza da massa de grãos e evite perdas;
  • Velocidade do cilindro: deve ser menor do que a usada para cereais (400 – 600 rpm);
  • Abertura do côncavo: deve ser maior que aquela usada em trigo;
  • A velocidade de deslocamento na colheita de canola deverá ser menor do que aquela usada para cereais para reduzir o risco de perdas por debulha;
  • Em terrenos com grande declive a massa de plantas e grãos tende a se concentrar em uma área restrita na lateral das peneiras reduzindo a eficiência da separação e aumentando as perdas de grãos. Nestes casos realizar a colheita subindo e descendo o declive com o ajuste correspondente da velocidade do ar pode reduzir as perdas de grãos aumentar a eficiência de eliminação de impurezas.

Dessecação

A dessecação química não é indicada. Apesar de facilitar a colheita mecanizada por uniformizar a maturação dos grãos, não existem herbicidas dessecantes em pré-colheita registrados para a canola no Brasil. Desta forma, a recomendação e o uso de defensivos sem registro e em desacordo com o receituário agronômico está sujeita a penalidades da lei que prevê multa e até reclusão.

Também é importante considerar que a aplicação terrestre causa perdas por amassamento de plantas.

Corte-enleiramento

O corte-enleiramento é uma operação mecanizada onde as plantas são ceifadas e amontoadas em linhas, formando leiras para secarem no campo. Após, as plantas são recolhidas e trilhadas pelas automotrizes. Esta prática uniformiza a maturação e a secagem, resulta em menos grãos verdes e reduz o transporte de impurezas.

O corte-enleiramento da canola é realizado quando a umidade dos grãos fica próxima aos 35%, assim que as plantas atingem o pico de enchimento de grãos. Após este ponto de maturação fisiológica, as plantas apenas perdem umidade. Os grãos verdes devem estar firmes o suficiente para não quebrarem quando rolados entre os dedos polegar e indicador.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Trigo, Gilberto Omar Tomm, a decisão sobre o momento de realizar o corte-enleiramento é o aspecto de manejo mais crítico: “quanto mais cedo for realizada a colheita, menores serão os riscos de perdas. As plantas de canola estarão no ponto adequado para corte-enleiramento apenas no período de 3 a 5 dias, já que a secagem dos grãos nas síliquas é um processo muito rápido nos dias quentes de primavera. Atrasos certamente vão implicar em perdas na produtividade”, explica Tomm.

A colheita e trilha das leiras é menos sensível a atrasos. As plantas podem permanecer na lavoura secando por um período que varia de 5 dias (clima seco) a 14 dias (maior umidade do ar). O recolhimento é realizado o mais próximo possível dos 10% de umidade nos grãos, com equipamento próprio para a canola, com plataforma chamada de “pick up”.

Os cuidados principais cuidados no recolhimento são:

  • Durante períodos de temperaturas muito elevadas, entre 25ºC e 30ºC, deve-se cortar/enleirar toda a área possível, dando-se preferência ao trabalho noturno para reduzir a debulha natural e a debulha devida aos impactos dos mecanismos da enleiradora ou da colhedora;
  • A rotação do cilindro de trilha deve estar entre 50% e 75% da rotação utilizada na colheita de trigo, ou seja, ao redor de 400 rpm;
  • A velocidade do ventilador deve ser reduzida para 1/4 da utilizada na colheita de trigo, pois a palha de canola é muito leve e de difícil separação dos grãos.

O Brasil conta com uma empresa no Rio Grande do Sul que fabrica as plataformas de corte-enleiramento e recolhimento de canola. Os dois equipamentos custam cerca de R$ 150 mil. Algumas indústrias de fomento disponibilizam os equipamentos em forma de rodízio entre os produtores.

“A principal alternativa para antecipar a colheita e reduzir perdas por granizo ou debulha natural na canola é o corte-enleiramento. O método é utilizado nos principais países produtores, como Canadá e Austrália, e pode ser o caminho para o Brasil aumentar a média de produtividade de canola nas lavouras”, finaliza Gilberto Tomm.

 

Embrapa Trigo

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
Passo Fundo – RS

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