Águas contaminadas, peixes doentes

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Pesquisa do PPGBioexp/UPF demonstra que herbicida reduz a resposta imune de peixes

O jundiá é um peixe nativo da América do Sul com presença significativa na alimentação da população. No sul do Brasil, as áreas vizinhas à piscicultura são frequentemente agrícolas, onde ocorre o uso de defensivos, como herbicidas, que contaminam as águas. Para avaliar os efeitos de um desses produtos na saúde dos peixes, a mestranda Karina Kirsten, do Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação da Universidade de Passo Fundo (PPGBioexp/UPF), estudou o assunto em sua dissertação, apresentada na quinta-feira, 14 de julho. O trabalho, intitulado “Atrazina reduz a expressão de genes imunológicos em peixes”, mostrou que o herbicida atrazina prejudica a saúde dos peixes, deixando-os menos resistentes a infecções.
 
Karina explica que a análise dos genes relacionados ao sistema imunológico é importante para conhecer detalhes sobre as alterações observadas no sistema imune de peixes expostos a produtos químicos. Para essa avaliação, os peixes foram distribuídos em três tanques: um grupo sem adição de produtos químicos e dois grupos contendo diferentes concentrações de atrazina. “Com esse estudo, nós comprovamos que a atrazina causa redução da ação de genes fundamentais para a regulação da resposta imune e demonstramos que isso possivelmente está relacionado com a redução da capacidade de defesa dos peixes frente a doenças comuns no meio aquático”, concluiu.
 
Para a mestranda, o amplo uso e consequente contaminação ambiental por defensivos agrícolas torna necessários estudos científicos sobre os efeitos desses produtos na saúde de seres vivos. “Só assim será possível mensurar o real impacto da contaminação do meio ambiente por defensivos agrícolas em pessoas e animais”, acredita. Para piscicultores, os resultados demonstram que o cuidado com a contaminação da água por defensivos agrícolas é de extrema importância para evitar redução da produtividade. Por outro lado, para a população em geral, alertam sobre os riscos da exposição a esses produtos. “Se causa efeitos deletérios na saúde de animais, há uma grande probabilidade de ser prejudicial também à saúde de seres humanos”, considera Karina.
 
Pesquisa pioneira
Esse foi o primeiro estudo que avaliou a expressão de genes do sistema imune da espécie nativa de peixes Rhamdia quelen (Jundiá), com uma metodologia alternativa para esse tipo de estudo em espécies nas quais os genes ainda não foram sequenciados. O orientador de Karina e coordenador do PPGBioexp, prof. Luiz Carlos Kreutz, destaca que esse foi o maior desafio. “Como não se tem informações sobre o material genético do jundiá, precisamos nos basear em comparações com genes de outros peixes. Fizemos experimentos, se acertávamos, íamos adiante, se dava errado, começávamos do zero”, conta. Kreutz destaca que estudos anteriores do PPGBioexp já apontavam para a diminuição da resposta imunológica. “A pesquisa da Karina possibilitou identificar quais os genes do sistema imunológico que regulam a resposta imune estão sendo reduzidos, o que explica os resultados que nós obtivemos anteriormente”, explica.
 
Além do professor Kreutz, integraram a banca de avaliação os professores Rafael Frandoloso (PPGBioexp/UPF) e Dênis Anziliero (Imed). O vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e docente do PPGBioexp Dr. Leonardo José Gil Barcellos acompanhou a apresentação. Para ele, a turma que conclui o mestrado neste semestre, cuja primeira apresentação foi a de Karina, mostra a consolidação do PPGBioex. “Faço parte deste programa e me sinto orgulhoso pelo seu fortalecimento”, destaca.
 
Novo desafio
Após a aprovação no mestrado em Bioexperimetação, Karina ingressa no doutorado em Farmacologia da UFSM, onde será orientada pelo professor Leonardo. Além de docente do PPGBioexp/UPF, Leonardo integra o quadro de professores do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia (UFSM), na linha de pesquisa Farmacologia aplicada à produção animal.

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