Pesquisa propõe ferramenta única para diagnosticar a lavoura com a ajuda de drone

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O lançamento do programa de desenvolvimento de uma plataforma unificada para uso de drones em agricultura de precisão, anunciado no dia 30 junho, vai permitir ao agricultor, principalmente ao pequeno, um diagnóstico da propriedade com muito mais rapidez, eficiência, precisão e baixo custo. O que levava dias para se conseguir, com a inovação proposta pela pesquisa, poderá ser obtido em tempo real, via rede celular.

A ideia é que esses sistemas de bordo inteligentes possam ser utilizados para detectar, com precisão, as deficiências das culturas, ocorrência de pragas, escassez hídrica, déficit de nutrientes e danos ambientais, aumentando a produtividade.

Atualmente o levantamento de dados de uma determinada área exige, pelo menos, quatro ações – decolar o drone, captar e baixar os dados, processar as informações com um ou mais softwares e interpretar os dados com a ajuda de um especialista. A operação completa pode levar até 15 dias. A partir do desenvolvimento do sistema de bordo inteligente, o produtor rural poderá obter as informações em apenas duas etapas e imediatamente.

Isso porque, em uma única placa já estarão uma câmera fotográfica, um processador de alta capacidade e algoritmos de processamento de imagem que vão permitir captar, processar, analisar e transmitir os dados do local em análise rapidamente, permitindo ao agricultor tomar medidas precisas, como evitar o uso demasiado de defensivos agrícolas, excesso de fertilização, observar falhas no plantio, entre outras intervenções.

O desafio de dar esse salto tecnológico está nas mãos de três instituições – Embrapa Instrumentação (São Carlos, SP), Qualcomm Wireless Reach (San Diego, EUA) e o Instituto de Socioeconomia Solidária – ISES (São Paulo, SP), que vão convergir esforços e competências para colocar em prática uma ferramenta que seja acessível também aos pequenos produtores.

A pesquisa para desenvolvimento de sistemas de bordo, envolvendo recursos de R$ 1 milhão, investidos pela Qualcomm Wireless Reach, e prazo de um ano para ser concluída, ocorrerá no Laboratório de Referência Nacional em Agricultura de Precisão da Embrapa (Lanapre), em São Carlos, que vai abrigar a equipe do projeto e trabalhar na criação do software.

O ISES, além de administrar o financiamento, realizará o monitoramento e avaliação do sistema junto com a Qualcomm Wireless Reach e a Embrapa na implementação das três fases previstas no projeto. O Instituto ainda deverá, após o desenvolvimento, realizar testes em campo com os dispositivos  para medir o impacto social e econômico da ferramenta.

Os sistemas vão combinar a expertise da Embrapa em pesquisa agropecuária, algoritmos de processamento de imagem com a plataforma para drones Snapdragon Flight da Qualcomm.

“Nós queremos traduzir os dados do campo, daquela fotografia captada, com informação realmente útil para o produtor. Imagina dar uma asa ao agricultor, para que ele possa olhar por cima, ver o que ocorre com a lavoura, sem precisar subir na caminhonete, como faz, muitas vezes, para inspecionar a plantação”, diz o pesquisador Lúcio André de Castro Jorge, que está à frente das pesquisas com drone na Embrapa Instrumentação.

Para o presidente da Qualcomm América Latina, Rafael Steinhauser, as três instituições vão trabalhar para potencializar o uso da tecnologia em drones, a ser empregado para fins de pesquisa em agricultura de precisão, principalmente voltada aos pequenos produtores. “A nossa preocupação nesse projeto é desenvolver ferramentas muitos eficientes, que tenham processamento, conectividade e que sejam econômicas, porque no Brasil, a maioria dos estabelecimentos agrícolas é de pequenos produtores”.

Segundo ele, o processador Snapdragon Flight reúne as condições necessárias para operar em drone, porque é um processador muito eficiente, com bateria e câmera pequenas e GPS incorporado. “Assim, o drone pode processar, descarregar e conectar-se com a base, de forma econômica. Então, a parceria tripartite nos anima muito, que ela seja um pontapé inicial, o primeiro passo para desenvolver uma parceria mais profunda”, diz.

O diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Ladislau Martin Neto, lembrou como a ciência, a tecnologia e a inovação colocaram o país no patamar em que está e quanto ainda poderá contribuir para o protagonismo do agro na segurança alimentar, no contexto global. De acordo com ele, 80% do que o Brasil produz é consumido pelo próprio mercado interno, exportando apenas 20%. “O que mostra que o emprego de ciência e tecnologia é fundamental. Esse programa de desenvolvimento de tecnologias para uso de drones em agricultura de precisão contribui para isso”, afirma.

A sócia-diretora do ISES, Marcela Bacchin Cardo, apresentou um panorama para justificar a importância da agricultura familiar no Brasil. Segundo ela, mais de 4.1milhões unidades produtivas pertencem a este segmento, que emprega 74% dos produtores, sendo que 70% do que é consumido no país é produzido por pequenos produtores. Marcela afirmou que a união teria condições de adquirir 2,7 milhões diretamente da agricultura familiar, segundo dados coletados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), no último ano.

“Com isso, a gente entende que essa parceria é uma grande oportunidade de ver os benefícios da tecnologia, adequar a metodologia implementada à lógica da agricultura familiar. Assim, podemos manter o homem no campo, gerando maior qualidade vida e diminuir a distância entre esses diferentes mundos”, conclui.

Mercado
Os veículos aéreos não tripulados são os destaques do momento. Mais de 40 países tem trabalhado no desenvolvimento desses aparelhos para diferentes mercados, com cifras bilionárias. Estudo do The Global UAV Payload Marker 2012-2022, realizado pela empresa RnR Market Research, divulgado no final de 2012, aponta que o mercado global de vants está em 43,7 bilhões de dólares, mas a previsão é que o setor movimente em torno de 68,6 bilhões em 2022.

O crescimento vem justamente na esteira dos avanços recentes da tecnologia computacional, desenvolvimento de software, materiais mais leves, sistemas globais de navegação, avançados links de dados, sofisticados sensores e miniaturização.

Pioneirismo na agricultura
No Brasil, os primeiros relatos de vants ocorreram na década de 80, quando o Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA) desenvolveu o projeto Acauã, para fins militares especificamente. Na área civil, também na década de 80, se destaca o projeto Helix, um vant de asa móvel que foi desativado nos anos seguintes. Mais tarde, o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (Cenpra) desenvolveu o projeto do dirigível Aurora, que serviu para capacitar a equipe de desenvolvimento.

Na agricultura, a Embrapa Instrumentação é pioneira no emprego de veículos aéreos não tripulados, tendo iniciado pesquisas com o emprego destes aparelhos em 1998. A proposta era substituir as aeronaves convencionais, utilizadas na obtenção de fotografias aéreas, para monitoramento de áreas agrícolas e áreas sujeitas a problemas ambientais, por vants de pequeno porte que realizassem missões pré-estabelecidas pelos usuários.

De lá para cá, a Embrapa investiu no desenvolvimento de outras plataformas e outras aeronaves, que fossem capazes de operar em condições de campo adversas, como as áreas agrícolas, porém com bom desempenho e baixo risco. Para isso, se inspirou no desenvolvimento de helicópteros sem piloto, muito flexível e preciso durante a pulverização destinada ao controle de pragas em culturas de arroz, soja e trigo. Em parceria com uma empresa americana, desenvolveu uma plataforma similar, com bom desempenho e robustez suficiente para campo.

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