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Trigo: safra de contrastes no Brasil

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A área apta ao cultivo do trigo no Brasil pode ser identificada em dez estados, sob dois sistemas de cultivo: sequeiro e irrigado. Essa amplitude permite ver trigo no campo desde as primeiras semeaduras no mês de janeiro até o final das colheitas em novembro. No momento, enquanto ocorrem os trabalhos de semeadura do trigo na Região Sul, já iniciaram as colheitas do trigo de sequeiro no Brasil Central. A dimensão geográfica permite grande variação nas condições climáticas, nos preços e nos resultados finais da safra brasileira.

Brasil Central

Na região do Brasil Central (estados MG, GO, DF, MS, MG e BA) o trigo pode ser produzido em dois sistemas de cultivo na mesma estação de crescimento: um em sistema de sequeiro ou safrinha, a partir da segunda quinzena de janeiro; e outro no sistema irrigado, sob pivô central, com semeadura a partir da segunda quinzena de abril.

Em 2015, os rendimentos de trigo na região ficaram acima dos 120 sacos por hectare (sc/ha) no cultivo irrigado e em 40 sc/ha no sequeiro. A qualidade também sempre foi o diferencial da região, com trigo pão e melhorador na maioria das lavouras. A região tem os primeiros trigos colhidos no País, o que garante liquidez com melhores preços.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Cerrados, Júlio Albrecht, a estimativa inicial era de crescimento de 10% da área com trigo no Brasil Central em 2016, com expectativa de área chegando aos 110 mil hectares e preços oscilando em R$ 52,00 a saca de 60 kg de grãos. Porém, o cenário começou a mudar no período de semeadura, quando culturas concorrentes como o feijão e o milho apresentaram cotações recordes no mercado, associado à falta de umidade para implantação das lavouras. “No mês de abril praticamente não choveu na região, então o trigo de sequeiro reduziu muito a área, com quebra nos rendimentos que não devem ultrapassar aos 17 sc/ha.  No trigo irrigado, muitos produtores desistiram de plantar pela falta de água para irrigação, destinando recursos escassos para culturas mais rentáveis, como milho para semente”, conta o pesquisador da Embrapa Trigo Jorge Chagas.

O calor e a falta de água também impactaram no desenvolvimento do trigo, limitando o crescimento das plantas, afetando a formação de grãos e acelerando o ciclo de maturação. A colheita, prevista para começar em julho, foi antecipada para este mês (junho). A estimativa do pesquisador da Embrapa Trigo Márcio Só e Silva é de redução no volume de produção de 285 mil toneladas em 2015, para cerca de 80 mil toneladas em 2016. “A qualidade ainda não é possível avaliar, mas estamos falando de um ano de clima extremo. Vamos aguardar o final da safra, lá por setembro, para então dimensionar a quebra na safra de trigo do Brasil Central”.

Áudio com o pesquisador Márcio Só e Silva no site da Embrapa Trigo.

 

Região Sul

Os estados da Região Sul tradicionalmente detêm 90% do trigo cultivado no Brasil, mas as frustrações nas duas últimas safras resultaram em redução de área em 2016: -13% no RS (Emater/RS), -14% no PR (Deral), e -18% em SC (Epagri). “As condições das últimas safras foram desanimadoras para o setor, com umidade elevada na colheita, geadas tardias e epidemias de giberela que depreciaram a qualidade final dos grãos. Mas as perspectivas para a safra 2016 são muito positivas, com indicativo de condições climáticas favoráveis como temperaturas baixas no desenvolvimento e primavera seca para o final do ciclo e colheita”, avalia o pesquisador da Embrapa Trigo Eduardo Caierão.

As lavouras de trigo começam a ser implantadas agora nas regiões mais frias da Região Sul, onde está concentrado o cultivo do cereal, com semeaduras até o final de julho.  Atualmente, o mercado dispõe de uma centena de cultivares de trigo, mas historicamente apenas 10 cultivares representam 80% da área de cultivo na região. O portfólio é variado, com perfil para diferentes classes comerciais (pão, massas, biscoitos, trigo branqueador), resistência a manchas foliares e doenças de espiga, tolerância à germinação, geada, acamamento, ciclo curto/médio/longo, entre outras características que devem ser definidas pelo produtor junto com a assistência técnica para cada condição de cultivo após definida a região e o arranjo no sistema de produção local.

“A questão do investimento nas lavouras de trigo deve ser tratada de maneira sensata. Atualmente existem cultivares que respondem melhor ao uso de insumos e outras nem tanto. A decisão do quanto investir depende da interação de uma série de fatores que vão desde a escolha da cultivar, até análise de solo, histórico de doenças e clima. O produtor deve utilizar a tecnologia necessária ao ótimo desenvolvimento da cultura, considerando sempre a viabilidade econômica”, destaca Eduardo Caierão.

Segundo levantamento da Emater/RS, no início de junho, o preço médio do trigo no RS é de R$ 40,00 (saco de 60kg) mas existem ofertas que chegam a R$ 54,00. “Sem dúvida é mais um ponto positivo para alavancar a semeadura do trigo na região”, conclui Caierão.

Cultivares Embrapa

Na Região Sul, a Embrapa está trabalhando no fomento das cultivares BRS Parrudo e BRS Marcante, ambas com perfil de panificação. A primeira, lançada a mais tempo possui tipo de planta diferenciado, excelente complexo de resistências às doenças foliares e algumas viroses além de apresentar força de glúten consistentemente alta. BRS Marcante destaca-se pela alta produtividade de grãos com estabilidade de qualidade para panificação e deverá ter grande adoção de semeadura em 2016. No perfil de cultivares de duplo-propósito (para uso no pastejo animal e na produção de grãos), BRS Tarumã mantém a referência de excelente opção aos produtores localizados em bacias leiteiras, contribuindo para a consolidação definitiva desse tipo de tecnologia no RS.

No Brasil Central, as alternativas da Embrapa para os estados de GO, MG e DF são BRS 404cultivar de sequeiro, ciclo precoce, trigo pão com estabilidade na produção de farinha. Primeira cultivar a apresentar maior tolerância à brusone com indicação de moderamente suscetível à doença; e BRS 394, trigo irrigado, ciclo precoce com alta produtividade, classe comercial melhorador e boa resistência à debulha.

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