Qualidade da semente é destaque no Fórum da Soja

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Evento reuniu produtores e especialistas para debater sobre sementes com alto vigor, o cenário econômico brasileiro e as perspectivas para o mercado da soja

Entre os destaques do 27º Fórum Nacional da Soja, evento que abriu as atividades do segundo dia da Expodireto Cotrijal 2016, esteve a discussão sobre qualidade da semente. O professor da Universidade Federal de Pelotas, Paulo Dejalma Zimmer falou sobre a importância da semente no momento de preparar a lavoura. “Produtor, você tem obrigação de usar semente de altíssima qualidade. Não use qualquer coisa porque vai custar caro”. De acordo com ele, além do índice de vigor e genética, outros fatores, como a tecnologia de aplicação e o solo influenciam na produtividade.

Em entrevista à 11ª edição da revista Destaque Rural, Zimmer explicou sobre como considerar a semente um insumo de menor importância pode acarretar consequências no momento da colheita. Confira:

Destaque Rural: Como podemos definir uma semente de alta qualidade? Quais são as características?

Paulo Dejalma Zimmer: Uma semente de alta qualidade se constitui no insumo mais importante da lavoura. Somente através da semente de alta qualidade será possível construir uma lavoura capaz de aproveitar ao máximo os insumos e o ambiente disponíveis num ciclo de cultivo. Também dependerá da qualidade da semente a capacidade das plantas suportarem os estresses impostos.  A qualidade da semente é dividida em quatro atributos: qualidade física, fisiológica, genética e sanitária. Todos esses atributos interferem no tipo de lavoura que será construída. Entende-se por lavoura bem construída aquela que é formada pelo número certo de indivíduos por hectare, posicionados de forma correta em relação aos vizinhos (distribuição) em cada 15 cm de linha de semeadura; aquela que não apresente plantas dominadas, doentes e, também , que não apesente indivíduos de outras variedades. Portanto, é através da qualidade da semente que será possível compor um cultivo com indivíduos superiores fisiologicamente (qualidade fisiológica), no local certo (qualidade física), do mesmo ciclo e estatura (qualidade genética) e sem riscos sanitários para o cultivo e para a propriedade (qualidade sanitária).

 

Qual é a importância de utilizar sementes de alta qualidade?

A utilização de sementes de alta qualidade é altamente estratégica para o produtor rural por interferir na construção da lavoura e, por conseguinte, na produtividade. Pesquisas realizadas em universidades e validadas por produtores rurais e produtores de sementes dão conta de que o vigor da semente aumenta a produtividade em lavouras de diversas culturas. Mas não basta elevado vigor se a semente não possuir um padrão físico capaz de permitir que os equipamentos utilizados na distribuição (semeadura) posicionem cada semente no local certo da linha de semeadura. Onde a semente for colocada existirá uma planta;  portanto, há uma relação direta entre padrão físico da semente, distribuição das sementes e distribuição das plantas. Esse padrão de distribuição irá interferir no acesso de cada indivíduo da lavoura aos insumos disponibilizados (nutrientes minerais, água e luz) e todos os itens de manejo alocados na lavoura. Por isso que chamamos tanto a atenção para a velocidade de semeadura – que precisa ser diminuída. Daí que é importante dizer que a semente precisa ser boa, mas precisa ser utilizada rigorosamente com o manual de instruções.

 

Qual é o conceito de vigor?

Na literatura encontramos vários conceitos para vigor da semente. Vou destacar dois: “Vigor de sementes compreende aquelas propriedades que determinam o potencial para a emergência rápida e uniforme e para o desenvolvimento de plântulas normais sob uma ampla faixa de condições ambientais” (AOSA) e, “Vigor de semente é a soma daquelas propriedades que determinam o nível potencial de atividade e desempenho de uma semente ou de um lote de sementes durante a germinação e a emergência de plântula (ISTA). Pode-se generalizar dizendo que ambos se restringem ao desempenho das sementes até o estabelecimento das plântulas. Em minha opinião, precisamos evoluir na forma como isso é colocado, para mirarmos no efeito deste estabelecimento sobre a produtividade, ou colocamos desta forma ou não convenceremos o produtor rural da importância da qualidade da semente. Toda a semente que atrasar a germinação e emergência (desempenho de baixo vigor) será dominada pelas primeiras que emergiram (alto vigor). Planta dominada produz menos (às vezes nem produz), atrapalha as demais e até reduz o desempenho de fungicidas e inseticidas por não receber a dose certa do princípio ativo. Em determinados casos, se comportam como plantas daninhas.

 

Há alguma legislação que fiscalize o vigor das sementes?

Não. Sinceramente acho que precisamos evoluir na forma como nos relacionamos com o arcabouço legal (legislações em geral). Adiantaria estar na legislação?

Nosso arcabouço legal não contempla vigor por este depender de um conjunto de testes com algum viés subjetivo ou com problema de repetitividade em função de ambiente. Em ambos os casos, qualquer questão legal envolvendo alguma disputa poderia facilmente ser judicializada. Temos que entender que o objetivo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) é definir as regras mínimas para o jogo e evitar o desabastecimento. É por isso que defendo que o mercado de sementes precisa ser reinventado. Devemos sim deixar a regulação a cargo do MAPA, mas entendo que não devemos apostar num mercado fiscalizado e,sim, num mercado regulado pelo consumidor – produtor rural. Para isso precisamos urgentemente informar as relações entre qualidade da semente e produtividade ao agricultor, para que ele exerça uma compra de sementes com mais consciência e passe, com isso, a valorizar o insumo de alta qualidade disponível no mercado, em detrimento da busca por preço. Esse processo também passa por um treinamento forte das equipes de vendas de sementes. Essas equipes poderão contribuir muito para uma venda mais sustentável economicamente, também com mais ética e que se repetirá. Voltando ao tema do vigor e da legislação, muitas sementeiras já estão informando o vigor ao produtor rural, como um serviço. Sem dúvida, isso precisa ser incentivado, pois se constitui no primeiro passo para a regulação do mercado pelo consumidor e não pelo fiscal.

 

Um alto vigor significa mais lucratividade?

Em minha opinião, sim e ela é baseada em dados de pesquisa validados por muitos produtores de grãos e sementes. Considerando que o vigor permitirá a formação de uma lavoura, ainda que as condições ambientais não sejam as ideais (sob estresse); que ele contribua para a diminuição de plantas dominadas na lavoura (plantas daninhas); que a germinação e emergência com vigor elevado sejam mais rápidas; que ele proporcione plântulas mais vigorosas e que ainda contribua para ajustar a população de plantas com mais precisão; sem dúvida, assim o vigor contribuirá para incrementos de produtividade e, neste caso, melhorará a margem final. Há dados de campo que mostram incrementos de 40 a 60 kg de grão de soja para cada ponto de vigor na semente.

 

Hoje, há uma preocupação maior por parte dos produtores em utilizar sementes de alta qualidade nas lavouras?

Sim e não. Precisamos entender que produtor rural não tem um pensamento comum. Produtor rural se constitui num conjunto de pessoas que pensam distintamente em função das experiências vividas como produtor, dos riscos e angústias, do sucesso, do fracasso e, principalmente, da história familiar e dos valores passados de pai para filho. Sem dúvida, as facilidades e ou dificuldades comuns de sua região também contribuem muito para a formação da sua lógica de pensamento e para o valor que ele atribui para cada insumo. Entendo que a segmentação permitiria entender melhor esse universo que é o “produtor rural”. Generalizando, podemos dividi-los em dois grupos: aqueles que estão olhando para a semente como algo altamente estratégico para a construção de suas lavouras voltadas para altas produtividades e aqueles que ainda olham para a semente como apenas mais um insumo ou um insumo de menor importância por poder ser “feito em casa”.

 

Você possui exemplos de pesquisas que relacionam qualidade da semente e produtividade?

Sim. Existem muitas informações disponíveis, inclusive um conjunto muito grande de informações geradas por produtores de sementes, por representantes e até por agricultores. À medida que a gente passa a falar mais sobre o assunto com profissionais do campo e produtores rurais, acaba sendo abastecido com mais informações ainda. Gosto de homenagear três trabalhos que considero simbólicos e que elevaram o nível das discussões sobre qualidade da semente e a construção de lavouras.

O primeiro deles foi desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), publicado na Revista Ciência Rural e concluiu que o vigor da semente de soja pode ser responsável por incrementos de até 35% na produtividade (KOLCHINSKI, E.M.; SCHUCH, L.O.B.; PESKE, S.T. Vigor de sementes e competição intra-específica em soja. Ciência Rural, nov./dez. 2005, vol.35, no.6, p.1248-1256). O segundo foi apresentado no congresso brasileiro de sementes de 2013 e tratou de validar em condições de campo o trabalho desenvolvido na Universidade (BALBINOTTI FILHO, O. Máxima produtividade com o uso de plantas de alta performance – A visão do produtor de sementes. In. XVIII Congresso Brasileiro de Sementes. 16 – 19 de Setembro de 2013. Florianópolis – SC). Ainda gosto de citar um terceiro trabalho que ilustra o quanto o processo de semeadura pode incrementar a produtividade em quase duas toneladas de milho, inclusive quando a produtividade já é elevada – acima de 12 toneladas por ha (LUIZ C. GARCIA, ROBERTO JASPER, MÔNICA JASPER, ALLISON J. FORNARI e JULIUS BLUM. Influência da velocidade de deslocamento na semeadura do milho Eng. Agríc. vol.26 no.2 Jaboticabal May/Aug. 2006).

Como mencionei anteriormente, outros trabalhos poderiam ser citados, mas gosto de homenagear estes três por passarem algumas mensagens importantes:

1)            A academia e também todos os órgãos oficiais e ou de extensão necessitam se aproximar mais do setor produtivo com trabalhos que efetivamente possam surtir efeito na rentabilidade do setor produtivo;

2)            O setor produtivo também necessita olhar mais para o que está sendo pesquisado e também influenciar mais essas pesquisas;

3)            Também costumo dizer que não basta que a semente seja boa; ela precisa ser entregue com um “manual de instruções” que deve ser seguido, assim o resultado superior será alcançado.

 

Outros painéis

Além deste, o Fórum contou com outros dois painéis. O gerente de Análise Econômica do Banco Cooperativo Sicredi falou sobre o cenário econômico atual. Mais tarde, o sócio-diretor do Grupo AgroConsult, André Pessôa, falou sobre as perspectivas para o mercado da soja. 

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