CULTURAS DE INVERNO: Quebra de safra e prejuízos na lavoura

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Foto: Vanessa Moraes/Emater
Foto: Vanessa Moraes/Emater

Geadas de setembro e excesso de chuvas diminuíram a produtividade e qualidade das cultura

Ângela Prestes/Destaque Rural

2015 não foi um bom ano para as culturas de inverno. Apesar de o produtor ter investido em sementes de qualidade e em bons tratamentos, o clima não colaborou e a produtividade sofreu mais uma baixa. Conforme o gerente adjunto da Emater/RS, Cláudio Dóro, os fatores que prejudicaram e levaram a frustração são os mesmos para todas as culturas de inverno. “Primeiro tivemos duas geadas consecutivas, nos dias 12 e 13 de setembro. Depois das geadas veio o excesso de chuvas nos meses de setembro e outubro, que continuou ainda em novembro”. Os fatores, acompanhados da umidade e elevação da temperatura, fez com que as doenças fúngicas se alastrassem. “A geada debilitou as plantas e abriu as portas para as doenças. Muitos agricultores até abandonaram as lavouras, porque viram que era antieconômico gastar ainda mais em cima de uma cultura que já não tinha mais potencial. Caiu qualidade, caiu produtividade e, consequentemente, o lucro do produtor se esvaiu”.  Algumas culturas chegaram a sofrer perdas de mais de 50% em relação à expectativa.

 

Trigo

A principal cultura de inverno do Rio Grande do Sul, na região do Planalto Médio, sofreu uma quebra de 47% em relação a expectativa inicial de colheita. O trigo teve uma área plantada de 55.100 ha, nos 40 municípios da Emater regional. A expectativa de produtividade era 3 mil kg/ha, mas a realidade ficou longe disso, apenas 1600 kg/ha foram alcançados. Contudo, para Dóro, a notícia ruim não é só a baixa produtividade, mas a baixa qualidade. 5% do trigo colhido é um trigo bom, 50% é trigo regular e 45% é trigo ruim. O preço mínimo, para o produto bom, é R$34,98 o saco de 60 kg. O produtor está recebendo hoje, em média, R$25,00. Se o trigo tem uma qualidade ruim, ele recebe R$19,00.

A cultura, de 2014 para 2015, já sofreu uma redução de área de 26%. E a tendência é reduzir ainda mais. “O agricultor se baseia muito no sucesso ou fracasso da safra anterior, para projetar a próxima. Tudo indica que, esse ano, nós tenhamos mais uma redução no trigo de novo. A não ser que o preço mínimo seja muito atrativo e a projeção de clima muito boa para as culturas de inverno. O que em 2015 nós não tínhamos”, explica Dóro. Quando o agricultor fez o planejamento da lavoura para plantar as culturas de inverno, em abril e maio, os institutos de metereologia já davam sinal de que o inverno e a primavera seriam chuvosos. “E isso acendia um sinal amarelo: cuidado com as culturas de inverno. E foi o que aconteceu. A tendência natural é diminuir área. E depende também da colheita de verão, se o produtor vai meio mal, não faz uma colheita lucrativa de soja e milho, ele investe nas culturas de inverno. Planta mais para compensar”. Em 2015 foi plantada uma área maior, mas proporcionalmente, em termos de produtividade, 2015 teve uma redução de cerca de 10% em relação a 2014. “E a qualidade foi pior também, porque não tivemos tantas chuvas”. Outro fator que pode influenciar no plantio de 2016 é a qualidade da semente. O trigo de baixa qualidade que foi colhido trará uma maior dificuldade para encontrar boas sementes no ano que vem.

 

Cevada

A colheita da cultura foi encerrada no início de novembro. Na região de Passo Fundo foram plantados em torno de 16 mil ha e a expectativa inicial era de uma colheita em torno de 3300 kg/ha. O que, como nas outras culturas, não se confirmou. Foi colhido cerca de 1750 kg/ha, uma redução de 47% na produtividade. “Os agricultores implantaram uma lavoura com boa tecnologia. Sementes de alto potencial genético, boa fertilização, fizeram os tratamentos certos. Então, até o dia 12 de setembro, as lavouras vinham excepcionalmente boas. Depois, por fatores incontroláveis, que é a questão climática, começou a se perder”. Dóro explica que a cevada é muito sensível às chuvas no período de maturação e, como predominou o tempo úmido e temperaturas em elevação, apareceram as doenças oportunistas. “Elas são, principalmente, Septoria e Giberella, doenças que acabam danificando o grão, reduzindo seu tamanho”. A qualidade ruim faz os preços despencarem. O produto que seria utilizado para a produção de cerveja deve ser vendido para forragem. “Toda essa cevada deu cevada forrageira e não cevada cervejeira. O que era para ser comercializado por R$35,00 caiu para R$20,00. Essa qualidade de produção não paga as contas”.

 

Canola

A cultura da canola, encerrada no final de outubro, foi a que mais sofreu danos na região. Foram plantados em torno de 7 mil ha. A previsão de colheita girava em torno de 1500 kg/ha e o fechamento da produtividade ficou em 700 kg/ha. Uma quebra de safra de quase 60%. “Frustrou a expectativa do produtor porque ele plantou a canola com uma perspectiva de colher no mínimo 25 sacos/ha. Até porque, para pagar o custo da lavoura de canola, ele precisa colher em torno de 13 a 14 sacos. Como colheu na base de 11 a 12 sacos/ha, a maioria não vai conseguir pagar os custos da lavoura”. Consequentemente, aumentou o número de produtores que recorreram ao seguro agrícola, o ProAgro. “Nós aqui da Emater fizemos diversas perícias em lavouras para avaliar perdas. E, infelizmente, no ano passado não foi uma colheita boa, e esse ano foi pior ainda, em termos de produtividade. Os produtores que plantaram canola estão amargando os resultados negativos. Teve lavouras que colheram 4 sacos/ha, como teve lavouras que colheram 18 sacos. Mas a média ficou em 12 sacos/ha”, pontua Dóro.

 

Aveia Branca

A aveia branca também sofreu perdas, mas em menor volume. Foram cerca de 2500 hectares cultivados na região. A colheita foi fechada em 2380 kg/ha, a expectativa era 3 mil kg/ha, uma queda de 21%. “Essa produtividade não foi tão ruim. Porém, a qualidade do produto ficou a desejar”. Ainda assim, em comparação com as outras culturas de inverno, foi a que obteve melhores resultados. “Deu para equilibrar as contas”, acrescenta Dóro. 

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