Compost Barn: Mais produtividade e conforto

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Sistema de confinamento de gado leiteiro, ainda novo no Brasil, aumenta os níveis de produção e traz benefícios aos produtores e aos animais

Ângela Prestes

Fotos: Ângela Prestes
Fotos: Ângela Prestes

Acordar de madrugada, enfrentar chuva, lama e tempo ruim para buscar os animais e ainda precisar lavá-los todas as manhãs antes de iniciar a ordenha. A rotina cansativa e desestimulante, comum para muitos produtores de leite no inverno, foi um dos motivos pelos quais Augusto Hoffstaedter decidiu trocar o sistema de semiconfinamento pelo ainda pouco conhecido Compost Barn. O modelo, desenvolvido nos Estados Unidos ainda na década de 1980, começou a obter popularidade entre os produtores somente em 2001. No Brasil, ainda é novo, mas já faz sucesso entre os poucos adeptos. A redação da Destaque Rural esteve na propriedade de Augusto, na localidade de São José do Umbu, em Victor Graeff/RS, e conheceu os benefícios do sistema. 

Desde 1996 na atividade pecuária, juntamente com o pai, Augusto iniciou o rebanho comprando 30 novilhas uruguaias importadas. A genética, de 19 anos de casa, 100% inseminação, já era de alto padrão, mas os animais apresentavam uma produtividade em torno de 25 litros de leite por dia. “O sistema utilizado era semiconfinamento. Tratava no cocho com silagem, ração e minerais e conduzia os animais até a pastagem. E assim se passou por 18 anos e meio”. As dificuldades com o manejo do gado, principalmente no inverno, foram um dos motivos pelos quais a mudança foi feita. “Ano passado, na época de chuvas, as vacas vinham atoladas até o ubre de barro. Estava muito ruim de fazer as ordenhas, o pessoal aqui estava de baixo-astral. Chuva, raio, trovão, tinha que ir pegar os animais às 4h20min e chegava aqui e ainda tinha que lavar todos eles”, conta Augusto. Outro motivo apontado por ele é a área perdida  onde os animais caminhavam, cerca de dois hectares. “Falando hoje, aqui na nossa região, de mil sacas de soja/hectare, se for fazer a conta de R$70,00 a saca, são R$140 mil que as vacas estavam caminhando em cima. É muito dinheiro para vaca caminhar em cima”. A decisão pelo Compost Barn veio depois de muita pesquisa literária e visita a fazendas que já utilizam o modelo. O bem-estar e conforto animal foram as principais razões da escolha. “Não existe sistema no mundo que dê mais conforto para o animal do que o sistema de cama de compostagem”.

AUGUSTO TRABALHA DESDE 1996 NA ATIVIDADE PECUÁRIA
AUGUSTO TRABALHA DESDE 1996 NA ATIVIDADE PECUÁRIA

 

O sistema

O Compost Barn consiste em uma grande área coberta de descanso para vacas leiteiras, revestida com uma cama de serragem, separada do corredor de alimentação ou cocho por um beiral de concreto. Seu princípio básico de funcionamento é a compostagem. O modelo visa ao aumento na produtividade e conforto dos animais e o principal elemento que proporciona isso é a cama, que depende de manejo adequado para o funcionamento. Segundo Augusto, não existe receita pronta; é preciso muita observação e cuidado. “Nós sabíamos que os desafios iriam ser grandes, porque existia pouca informação. Cada lugar é um lugar, cada propriedade é uma propriedade. Está acontecendo muito de o pessoal aderir ao sistema sem a informação correta. Nós tivemos um desafio bastante grande, mas conseguimos passar por tudo isso”.

 

Manejo

De acordo com Augusto, é preciso manter a temperatura e a umidade controladas. “E isso só se consegue fazendo um bom manejo. Mexidas de cama, escarificação ou o uso de enxadas rotativas para quebrar o torrão e reposição de cama”. A reposição, feita com maravalha, não tem um intervalo específico; é necessário acompanhar se a cama está com a temperatura ideal e se a umidade está controlada. “Não existe um intervalo predeterminado, mas o que nós temos observado aqui é em torno de três semanas. Outro fator que faz você perceber que precisa repor cama é quando as vacas começam a vir muito sujas para a sala de ordenha”. Conforme Augusto, quando é feita a reposição de cama, a temperatura vai de 55ºC a 65ºC, a 10 cm da superfície. “E quando a cama chega a uma fase adiantada de compostagem, que é o que tem que acontecer,  a temperatura começa a cair. A temperatura não pode chegar, em hipótese alguma, em menos de 40ºC, porque aí as bactérias prejudiciais, que podem causar problemas, entram no jogo. Chegou em 42ºC, eu ligo pro pessoal trazer mais material para que eu possa fazer a reposição”. O custo fica em torno de R$ 3 400,00 para uma reposição de 5 cm. Porém, é preciso colocar, na planilha de custos, cerca de R$ 4 mil por mês de material, já que no verão as reposições são feitas mais espaçadas e no inverno é necessário um investimento maior.

UM BOM MANEJO É ESSENCIAL PARA O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA
UM BOM MANEJO É ESSENCIAL PARA O FUNCIONAMENTO DO SISTEMA

 

Além da reposição, as mexidas da cama também fazem parte de um manejo correto. O produtor precisa ficar atento ao clima. Em dias quentes, com umidade do ar relativamente baixa, duas vezes ao dia é suficiente. Nos dias em que chove muito, a umidade da cama tende a aumentar; então, é preciso mexer três, até quatro vezes ao dia. O revolvimento deve respeitar também a profundidade. “Não se pode mexer a cama lá embaixo, na parte em que não tem mais oxigênio. Tem que manter um padrão de profundidade de mexida de cama. Nós estamos usando o padrão de 30 cm”, explica Augusto. Hoje, a cama, que começou com uma altura de 30 cm, está com 45 cm. Nos 15 cm que não se mexe mais, o composto já está formado. O uso de enxada rotativa, para baixar a umidade, é semanal, já que ela diminui a capacidade oxidativa da cama.

 

Galpão

Se o manejo da cama e os cuidados com reposição e mexidas são importantes, a construção do local também tem um peso significativo. O investimento no galpão, com capacidade para 160 animais – 10m² de cama por animal, foi de R$640 mil. A construção tem altura de 5 metros de pé direito e angulação de telhado de 25 graus. O projeto foi feito por Augusto, com o auxílio da fazenda StarMilk, do Paraná. Segundo ele, um dos pontos importantes durante a construção do galpão é o lanternim, uma abertura na parte superior do telhado que possibilita a ventilação natural do ar sob a cobertura. “A primeira coisa que as pessoas que vêm visitar me perguntam é se chove pra dentro pela abertura do lanternim. Chove para dentro e consequentemente aumenta a umidade. Mas isso são cerca de 60 dias durante o ano. Aí tu vais penalizar o sistema, construir mal, fazer a abertura de lanternim errada por causa de 60 dias? E os outros 305 dias do ano? Eu fiz sabendo que isso iria acontecer, que eu teria que repor mais vezes durante essa época. Mas o lanternim é o que faz funcionar porque tira o calor de dentro do galpão”. Além disso, a utilização de cortinas, que impedem que a chuva entre, e ventiladores, que auxiliam na secagem da cama, são outros fatores a serem observados.

ANTES DE CONSTRUIR, É PRECISO CONHECER TODAS AS PARTICULARIDADES DO GALPÃO
ANTES DE CONSTRUIR, É PRECISO CONHECER TODAS AS PARTICULARIDADES DO GALPÃO

 

Vantagens

A conta vale a pena. Além de mais conforto, tanto para os animais, quanto para as pessoas trabalhando no sistema, a lucratividade aumentou. Em abril, quando o sistema foi implantado, a média de leite era de 26 litros vaca/dia. Hoje, são 35 litros vaca/dia e um rebanho de 132 animais. “A gente já tinha alimentação dos animais 80% no cocho. Nós colocamos aqui dentro 100% da alimentação. Aumentou 20%, mas o custo não aumentou tanto. Principalmente porque as áreas em que nós plantávamos pastagem, agora nós produzimos silagem”, explica Augusto. Com uma estrutura melhor, não é possível produzir mais barato o leite, mas é possível aumentar a eficiência produtiva dos animais e das áreas. Contudo, para que o Compost Barn seja eficiente, é preciso pensar no todo e não deixar passar nenhum detalhe. “A informação que se vende por aí às vezes é falha. Nesse sistema não se pode ter o eu acho. Tem que fazer a coisa certa. O sistema, se bem feito, se paga. Só pelo acréscimo de produção”.

Para Augusto, a mudança só trouxe benefícios. “Nós caminhávamos por dia, atrás de vacas, 3 horas por dia. Hoje, atirando muito alto, caminhamos meia hora. Nós estamos mais do que contentes com o sistema”, conclui.