I Seminário sobre Sucessão Rural é realizado em Passo Fundo

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O auditório do Sindicato Rural de Passo Fundo foi palco de um importante debate com o tema sucessão rural.  Nesta terça-feira (18), gerações que representam empresas familiares agropecuárias debateram com especialistas na área, a busca pela permanência dos negócios, a mudança no perfil das famílias e a necessidade de maior conhecimento por parte dos sucessores. O Seminário foi promovido pela Revista Destaque Rural e o Sindicato Rural de Passo Fundo. Além de palestrantes de empresas como Safras & Cifras e Grupo Agros, cases das famílias Bertagnoli e Webber fizeram parte do debate. 

Um dos palestrantes do evento, Murilo Damé Paschoal, consultor e sócio-proprietário da empresa Safras & Cifras, destacou que é fundamental compreender a necessidade de discutir a sucessão rural em conjunto, enquanto os pais estão presentes. “É muito mais difícil os filhos sozinhos fazerem esta discussão. É preciso uma disposição de toda a família, partindo da primeira geração, com a presença de todos, tanto os que trabalham na propriedade como não, para construir um processo de forma democrática e gradual”, explicou. Murilo lembra que não há mais passagem de uma geração para outra, mas uma mudança de papéis dentro da empresa, com amadurecimento dos pais, que permanecem com o poder de mando sobre a empresa, mas trazendo os filhos a assumirem seus papéis, cargos e funções de forma clara. “O processo de sucessão mudou nesta nossa geração, especialmente em função do tamanho da família, que reduziu o número de filhos e também em função do regime de casamento. Os casamentos eram mais duradouros, com comunhão universal de bens e hoje a maior parte dos casamentos é regida em comunhão parcial. O número de divórcios é maior em relação à geração anterior, portanto o risco de perda de parte do patrimônio da família é muito maior. Em contraponto vimos a entrada dos filhos por afinidade e não por pressão como existia no passado, o que é positivo”. O especialista lembra que antigamente os pais queriam levar todos os filhos para a propriedade. “Agora eles querem a participação dos herdeiros que possam agregar valor ao negócio. É preciso respeitar a capacidade e vontade de cada um de produzir na sua área. Nem todas as empresas têm espaço para todos os filhos então é preciso respeitar afinidade e a formação profissional de cada um”.

Para Cilotér Borges Iribarrem, também sócio da empresa Safras & Cifras, há vários fatores que contribuem para o processo de sucessão ser diferente atualmente. “Tanto é que vimos um evento com auditório cheio, onde há pais, filhos e netos debatendo a sucessão rural. É um tema palpitante em todo o país, é preocupação dos agentes financeiros, das multinacionais e das próprias famílias. Uma das questões que mudou é a expectativa de vida, que aumentou, onde várias gerações com perfis diferentes trabalham juntas. São pessoas de 25 anos e 70 trabalhando juntas, e essa é a maior diferença no processo de sucessão rural e precisamos nos ater a estes fatores”, alerta. Outra questão que o especialista destaca é a competitividade. “Negócio que se fraciona, se perde na escala e termina, então é preciso investir antes de dividirmos o que temos, por isso é preciso um bom planejamento da sucessão familiar. É importante que os produtores saibam o que precisa ser feito”.

Adalberto Coimbra, diretor do Grupo Agros, levou ao evento dados que demonstraram o diferencial de empresas bem administradas, garantindo competitividade no mercado. A necessidade de alinhamento e conhecimento por parte de quem trabalha em empresas familiares agropecuárias foi um dos focos. “O aspecto principal é que a família consiga construir uma relação de confiança e respeito para permitir discutir um tema que é extremamente difícil, que é a forma como fará com que o patrimônio produza renda e atenda ao propósito, que é fazer com que a família se torne unida e viável. Se não tiver uma organização, um planejamento e acima de tudo não estruturar instâncias que permitam que a discussão seja produtiva, vai haver uma possibilidade muito grande de um conflito, uma deterioração das relações. Uma relação de pai e filho tem mais voltas que uma relação de gestor, então a possibilidade que a relação da família invalide a relação profissional é grande. Por isso a necessidade de planejar cada passo, preparar os membros da família para que nem todos os conflitos se tornem relevantes e que consigamos isto num âmbito do negócio”, disse.

Segundo Coimbra, há uma melhor percepção da sucessão rural atualmente. “As pessoas estão buscando um nível maior de conhecimento, até porque o interesse é cada vez maior em permanecer ativo. Os exemplos do passado mostram que muito das empresas se perdeu pelo fato de não terem feito esta preparação. Buscam conhecimento, mas na hora fazer uso em prol do benefício coletivo, onde sai da situação de dono – que sempre tem razão-, para a situação de sócio – onde tem que dividir diferenças e multiplicar as capacidades -, isto, às vezes, não é compreendido”.

O especialista lembra que é preciso calma e tempo para que haja maturação e eleger principais conflitos. “É preciso retirar as pessoas de um embate onde o objetivo seja ter razão e não resolver o problema”.