Triticultura: Desistência ou persistência?

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Presidente da Comissão do Trigo da FARSUL aponta percalços e esperanças da produção de trigo no Rio Grande do Sul

 

A história do trigo gaúcho leva ao início dos anos de 1900 e, tem um importante marco entre os anos de 1956 a 1958 , quando em um forte apelo nacionalista, Getúlio Vargas, presidente da época, pregava a autossuficiência na produção de trigo, aço e petróleo. Na sua visão, assim estaria garantida a necessária autonomia  e dependência nacional. Mais adiante a luta do produtor voltou-se ao preço mínimo e, em 1967, ficou estabelecido que a compra do trigo nacional seria feita exclusivamente pelo Banco do Brasil. A modalidade de aquisição perdurou até o início do governo Collor, quando foi extinta, passando, a partir de então, à livre comercialização. 

Conforme conta o presidente da Comissão do Trigo da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul – FARSUL, Hamilton Guterres Jardim, mais recentemente, em 1985 e 1986, houve uma nova tentativa de alavancar a produção nacional, desta vez com a criação do “Grupo do Trigo”, que envolvia pesquisadores, assistentes técnicos, cooperativas, obtentores, governo, entre outros. A atividade do Grupo resultou numa ação de incentivo ao plantio através do estabelecimento do Valor Básico de Custeio – VBC (atualmente denominado orçamento de lavoura), compatível com a tecnologia preconizada na época visando, desta maneira, incentivar o produtor a realizar maiores investimentos na cultura, que tinha preço de garantia bem acima de mercado (algo em torno de 240 dólares por tonelada, e garantia de compra). A assistência técnica também valorizava o produtor assistido que produzisse 2.100 Kg/ha, uma vez que a produtividade média estava em 1.500 Kg/ha, o que era um grande desafio.

“Com esse incentivo o produtor fez a sua parte, o clima ajudou e conseguimos uma safra no Brasil, superior a seis milhões de toneladas, quando o consumo nacional era pouco mais de sete milhões de toneladas, ou seja, produzimos algo em torno de 80 por cento do consumo nacional. De lá para cá, com o lançamento de novos materiais genéticos, a produtividade aumentou e, muito mais, os custos de produção que também estão elevados. Não bastasse o fato, as condições climáticas, principalmente geadas e chuvas excessivas, prejudicaram muito as lavouras. Desta maneira, considerando a safra de 2013, produzimos pouco mais de cinco milhões de toneladas, ou seja, menos da metade de um consumo aproximado de mais de onze milhões e meio de toneladas. Ao mesmo tempo, gastamos com importações de, aproximadamente, seis milhões e meio de toneladas, algo em torno de 2,5 bilhões de dólares”, diz Jardim. Segundo ele, estes fatores mostram a fragilidade do setor, que não tem previsibilidade na produção em virtude da falta de incentivo governamental. Se comparado aos demais países membros do Mercosul, tem o mais alto custo de produção. “Sem considerar os gargalos em termos de logística para escoamento interno, principalmente para o Norte e NE, grande região consumidora, mas bastante distante dos estados produtores e responsáveis por mais de 92% da produção nacional, que são as terras frias do RS, PR e SC (este último estado em menor volume de produção)”, complementa.

Altos custos de produção

Para Jardim, o grande percalço da triticultura moderna, em que pese os excelentes e produtivos materiais modernos, desenvolvidos por entidades públicas e privadas, é o alto custo de produção da lavoura. “Isto em muito tem contribuído para que grande parte das terras fique descobertas no inverno com esse cereal tremendamente nobre, que já chegou a ser cultivado em metade da área plantada com milho e soja no final dos anos 80 e, atualmente, não ocupa sequer nem 20% da área cultivada com soja e milho no estado, hoje de, aproximadamente, 5.800.000,00 hectares. Não bastasse isso, o cultivo de um grande número de cultivares ou variedades, bem como o baixo número de armazéns adequados com a eração e termometria para receber o trigo por ocasião da colheita, impede um sistema de segregação mais efetivo. Hoje, como a situação está posta, o produtor deixa de agregar valor a sua produção, visto a dificuldade de segregar o trigo de acordo com a aptidão comercial das cultivares e, desta maneira, deixa de gerar maiores receitas”, avalia.  

Nova realidade

Ainda de acordo com o presidente da Comissão do Trigo da Farsul, a partir da resolução número 38 do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), de novembro de 2010, que preconiza novos parâmetros visando a qualidade, e também por normas da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que estabelecem parâmetros de micotoxinas, tanto para grãos como para produtos derivados, uma nova realidade tem que ser encarada pelo setor e por toda a cadeia produtiva.

“É neste contexto que todos os atores principais da cadeia terão que encontrar as soluções, seja através das câmaras setoriais estaduais e da câmara temática das culturas de inverno do MAPA, bem como, através das federações dos segmentos envolvidos, visando mostrar, desta maneira, para os governos estaduais e federal a importância deste grande segmento, que gera emprego (cada 30 hectares plantados gera 1 emprego direto e 2 indiretos), gera renda, gera tributos e desenvolvimento regional. Ou resolvemos esses gargalos ou vamos acreditar na proposição de Assis Chateaubriand, em Erechim, por ocasião da VI Festa Nacional do Trigo realizada em 1956, onde sugeriu que os produtores gaúchos abandonassem a lavoura de trigo e se dedicassem a criação de ovelhas”, declarou Jardim.

“Ou resolvemos esses gargalos ou vamos acreditar na proposição de Assis Chateaubriand, em Erechim, por ocasião da VI Festa Nacional do Trigo realizada em 1956, onde sugeriu que os produtores gaúchos abandonassem a lavoura de trigo e se dedicassem a criação de ovelhas”. – Hamilton Jardim.

 

Leitura

Outras histórias sobre a triticultura gaúcha podem ser encontradas no livro “Fecotrigo, um trabalho de união”, de Jaeme Luiz Callai, editado em 2008, na comemoração dos cinquenta anos de união da federação das cooperativas, e que mostra as dificuldades do segmento e produtores.