TRIGO: “O problema é nosso, nós temos que resolver”

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Confiança e previsibilidade: estas podem ser consideradas as palavras chave para a resolução de boa parte dos problemas relacionados à comercialização do trigo produzido no Rio Grande do Sul. É o que acreditam os participantes da Câmara Setorial do Trigo, do Sindicato Rural de Passo Fundo/RS, grupo que há quatro anos debate as possíveis soluções para melhoria da cadeia da triticultura no estado, que tem capacidade para produzir 9 milhões de toneladas do cereal ao ano. “O mercado do trigo é altamente disputado, é preciso estar nele com seriedade. O custo de produção também é um fator importante já que, no Brasil, é o mais alto do mundo e concorremos com a Argentina e os Estados Unidos. Mas é somente quando estivermos com a “casa pronta” poderemos chegar até Brasília e pedir por mudanças. Existe um movimento em busca disso, mas é preciso o convencimento de todos os elos da cadeia a respeito da importância de andarmos em um mesmo caminho, para chegar ao encontro de um mesmo ideal. O problema da comercialização do trigo é nosso, nós temos que resolvê-lo”, diz o presidente da Comissão, Julio Susin.

João Batista e Suzin, participantes da Câmara Setorial do Trigo, do Sindicato Rural de Passo Fundo/RS
João Batista e Suzin, participantes da Câmara Setorial do Trigo, do Sindicato Rural de Passo Fundo/RS

Segundo os produtores, desde a extinção da Cetrin (Comissão para Compra do Trigo Nacional, extinta em 1990, que fixava preços e direcionava a produção brasileira) que a comercialização e a política voltada para o cereal está à deriva. “Com o fim da Cetrin ficamos à própria sorte. Não existe projeção de consumo, alinhamento de comercialização, ou um norte para dizer as variedades mais indicadas ou o que se consume no país em termos de trigo. Nosso grande erro, na época, foi delegar a terceiros o problema que herdamos. Em tentativas falhas, o Ministério da Agricultura tomou iniciativas que não funcionaram ou funcionaram somente em parte”, declara o membro da Comissão do Trigo do Sindicato Rural de Passo Fundo, João Batista Fernandes da Silveira. Ele destaca que dos 27 estados da Federação, somente dois (RS e PR) são produtores efetivos de trigo.

Susin relata que o primeiro trabalho realizado pela Comissão foi na busca de alternativas de dar qualidade ao trigo e que, hoje, a pesquisa está alinhada com as necessidades dos produtores e consumidores. Porém, ao mesmo tempo, há uma grande batalha em torno da segregação, que ainda não acontece da forma devida e prejudica a comercialização do produto gaúcho. “A segregação é fundamental, pois não adianta pesquisa e variedades exatas quando, no meio do caminho, mistura-se tudo. Não se faz nem uma coisa nem outra”, diz Susin.  “Se o gargalo do trigo é a comercialização, temos que melhorar nosso produto. Temos trigos excelentes que não estão atendendo à especificidade do moageiro porque não estão segregadas. Quando fizermos isso, daremos confiança para o mercado e, com esta confiança, conquistaremos a previsibilidade necessária. Ou seja, haverão informações sobre onde buscar o trigo, quais os tipos e quantidades que devem ser viabilizadas para o mercado interno e externo. Esse é o primeiro passo para retirar o excedente de nosso estado”, afirma Batista.

Agora, o que a Câmara Setorial busca é uma política de comercialização de trigo onde seja possível dimensionar a produção e dar um rumo à comercialização. São maneiras de alinhamento com as necessidades da indústria, no mercado interno, e a prospecção de mercados internacionais.

Outro passo a ser dado é buscar alterações na Lei da Cabotagem. “Em 2014 é impossível que o espírito desta lei seja ainda da época do império. Até algum tempo atrás, admitia-se a existência desta lei, porque não havia telefone e a nota fiscal era feita à mão. Hoje, com GPS e nota fiscal eletrônica, não é possível aceitar a quantidade de carimbo necessário para tirarmos o produto daqui. A burocracia é um atraso de vida”, ressalta Susin.

Ainda conforme os representantes do setor, hoje, o RS produz 30% de seu potencial. Se chegasse aos 100%, o trigo seria a segunda cultura do estado em volume. Na última safra, o estado produziu 3.360 milhões de toneladas, com capacidade para quase 10 milhões de toneladas. 

Fazem parte das melhorias a serem buscadas:

– Lei da Cabotagem;

– Tributação;

– Portos:

– Redução do custo do transporte rodoviário e ferroviário;

– Armazenagem correta;

– Rastreabilidade.

“O Rio Grande tem que acordar para seu potencial. Não é possível que o país esteja importando trigo para colocar na cesta básica enquanto temos toda esta produção em nosso estado. Precisamos do envolvimento do produtor, do cerealista, da cooperativa, do setor moageiro e do governo do estado. Temos que começar a nos organizar em conjunto. O trigo foi a primeira cultura mecanizada no Rio Grande do Sul e foi o carro chefe da agricultura por muitos anos no estado”, declara João Batista.

“Nosso trabalho é de agregar as pessoas e as ideias e levar as reivindicações coletivas às autoridades, não pedidos individualistas. Para nossos pedidos chegarem ao governo federal, precisamos de objetividade e força”, concluiu Susin.

 

 

***OPINIÃO***

Chegaremos lá!

“Entra ano, sai ano, acontece a mesma coisa com a comercialização do trigo: excedentes que não conseguimos retirar do estado. Aí vem a lei da oferta e da procura e os preços despencam. Assim temos vivido o calvário da cultura do trigo, sempre de pires na mão, pedindo providências aos nossos governantes, ou seja, que seja apagado o incêndio. Isso quando não ficam os grandes problemas financeiros, provenientes de quem cultivou e não conseguiu comercializar.

O que realmente falta para que algo de diferente aconteça, para revertermos este quadro nefasto, que passa a imagem de pedintes ou verdadeiros incapazes?

Segundo os produtores, desde o fim da Cetrin (não há bem que sempre dure), aconteceu o pior: ficamos órfãos. Como os fortes e organizados sempre dominaram os fracos, justamente por não termos assumido o problema, delegamos a terceiros a sua resolução e estamos, até hoje, dependentes de políticas públicas que, diga-se, são bem intencionadas mas não resolvem o problema, porque elas não estruturam a cadeia.

Para resolver o problema da comercialização do trigo, três palavras resumem quase tudo: organização, confiança e previsibilidade. Mas se não as colocarmos em prática, nunca chegaremos lá.

A organização se refere a que tipos de trigo produzir, quando produzir, onde produzir, para quem produzir, segregar. Se isso não acontecer, não é possível saber o que temos a oferecer aos compradores. Pergunto: “Que tipo de comerciantes somos se nem sabemos o que estamos vendendo?”.  Quando soubermos o que temos a oferecer, e aqui não queremos a perfeição absoluta, teremos adquirido o mínimo de confiança de nossos compradores, afinal quando compramos qualquer coisa, por mais simples que ela seja, desejamos que desempenhe a função pela qual foi adquirida. Ou não compramos mais a referida marca e nem entramos no estabelecimento comercial que nos vendeu por falta de confiança. É como vender gato por lebre, a sensação é de termos sido logrados.

A terceira palavra chave se chama previsibilidade, ela faz parte do jogo do comércio. O trigo varia de preço conforme a oferta e procura, o que não variam são as condições como taxa de impostos e formas de transporte, que entram nos custos. Sabemos que não é possível em grande quantidade e distâncias longas. Somente se viabilizar por transporte marítimo, o que, com nossas leis de cabotagem, são um verdadeiro empecilho. Com o fluxo normal de mercadorias, não podemos toda hora pedir a “benção” disto ou daquilo como isenções de taxas e, principalmente, licença para faturamento de navios de outras bandeiras, já que para os nossos navios, a marinha mercante é virtual, só no papel.

Sabemos que a empreitada não é de curto prazo. Mas organizados e com objetivos bem focados, com cada segmento da cadeia fazendo a sua parte, chegaremos lá, sem dúvida nenhuma.

Pensem numa coisa: somos milhares de produtores, dependentes de reformas de leis totalmente superadas. Quem as modificam são os representantes que elegemos. Portanto, o mínimo que desejamos é que nos representem à altura.

Volto a afirmar: com cada um fazendo a sua parte chegaremos lá”.

Julio Susin

Presidente da Câmara Setorial do Trigo, do Sindicato Rural de Passo Fundo