O midas dos campos de cima da serra

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Da produção de peças automotivas ao queijo tipo grana, Raul Anselmo Randon sabe como transformar todas as suas apostas em ouro

Fabiana Duarte Rezende

Foto: Diogo Zanatta

A mesma mão que batia a bigorna para a confecção de ferramentas ao lado do pai é a que, mais de sete décadas depois, confere, com um ar de orgulho e de admiração, a grande peça de 30 quilos de queijo fino, do tipo grana, pouco produzido no Brasil e que espera, calmamente, o prazo de 12 meses de maturação antes de ir à mesa do consumidor. Esta é apenas uma pequena parte do império de Raul Anselmo Randon, que vai das peças automotivas aos produtos gourmet.

Facilmente associado a Midas, personagem da mitologia grega que transformava em ouro tudo aquilo que tocava, o senhor de simplicidade e bom humor admiráveis, possui uma história de vida e de conquistas dignas de inspiração. “A vida é tão boa”, diz Randon que, aos 85 anos de vida recém-completados, não quer parar de trabalhar.

Hoje, com 65 anos de existência, a Randon, conglomerado de onze empresas de fabricação de veículos, implementos, autopeças e serviços, com sede em Caxias do Sul (RS), tem um patrimônio de R$ 3,5 bilhões. A multinacional está no comando dos filhos de Raul que, atualmente, dedica-se à RAR (responsável pelas marcas Rasip, Gran Formaggio, Campos Gourmet, Campos de Vacaria e Vinhos RAR), voltadas à produção de maçãs, grãos e suínos, além de queijos e vinhos de alta qualidade, com um faturamento anual de R$ 50 milhões.  A sede fica em Vacaria (RS).

O início

“Comecei a trabalhar com 13, 14 anos, ao lado de meu pai, que fabricava ferramentas agrícolas como enxada e machados. Trabalhei até os 18 anos com ele, quando tive que servir o exército. Quando retornei, passei a empreender ao lado de meu irmão, na reforma de motores”, conta Raul Randon. O ano era 1949. Nos anos 50 foi fundada a Mecânica Randon Ltda, que dá início à fabricação de freios a ar para reboques e do terceiro eixo para caminhões. “Naquela época era grande o transporte de madeira até Porto Alegre para a exportação. Porém, os caminhões não eram grandes como hoje e os freios não eram bons. Muitos tombavam, principalmente na descida da serra. Foi aí que pensamos em fazer este freio para reboque”, conta Raul.

Em seguida, a empresa partiu para a fabricação dos primeiros semirreboques. Nos anos 70, Raul Randon fez uma viagem à Europa, onde conheceu mais profundamente o sistema de transportes mundial. Voltou com a ideia firme de que poderia expandir a sua produção, especialmente pelo potencial de crescimento do setor na época. “Meu irmão Hercílio era muito inteligente e engenhoso, sabia fazer as coisas com qualidade. Quando retornei desta viagem para a Itália, produzíamos 700 unidades de reboque e semi-reboque ao ano. Mas, após a visão que tive na Europa, queria chegar às 1000 unidades ao mês, passando para 12000 ao ano”, conta.

Os irmãos investiram em uma nova fábrica, com 40 mil metros quadrados de área construída. Através da Randon Veículos, esta foi a primeira montadora genuína de veículos automotores do Sul do Brasil. Foi nos anos 80 que se iniciou a diversificação dos negócios da Randon, com a fundação da Freios Master  e da Administradora de Consórcios Randon. Nos anos 90 acontece a incorporação da Fras-le e a fundação da Randon Argentina e da JOST Brasil. Na década de 2000, é feita a fundação da Suspensys e da Castertech. Desde então, a Randon consolida-se como uma marca de referência global, com parceiros estratégicos de classe mundial, posicionada entre as maiores empresas privadas brasileiras e exportando para todos os continentes.

 

O conglomerado de empresas Randon inclui:

Veículos e implementos:

– Randon Veículos

– Randon Implementos

Autopeças:

– Suspensys

– Fras-le

– Master

– Jost

– Castertech

Serviços:

– Consórcio Randon

– Banco Randon

 

R$ 6,3 bilhões é o faturamento esperado para este ano na Randon.

 

A RAR é patriarca das marcas:

– Rasip

– Gran Formaggio

– Campos Gourmet

– Campos de Vacaria

– Vinhos RAR

 

R$ 50 milhões é o faturamento anual da RAR

 

“O transporte e a comida são duas coisas que nunca vão parar no mundo”. – Raul Randon

 

Agronegócio

Após dedicar boa parte de sua vida à Randon, Raul resolve buscar no agronegócio novas alternativas de investimento e de realização pessoal. Foi então que deu início à história da RAR. Através do aproveitamento de incentivos fiscais para reflorestamento, o empreendedor pensou em aliar o justo ao rentável. Por que não reflorestar com macieiras? A princípio, o plantio se deu em diferentes áreas do estado. Posteriormente, concentrou toda a produção na cidade de Vacaria, onde até hoje mantém a sua sede.

A cidade da região dos Campos de Cima da Serra tem clima propício para as maçãs de alta qualidade. A produção que começou com 200 ha, passou para os 1000 ha com o decorrer dos anos, apesar dos altos e baixos do negócio agrícola. “Em 1986, veio uma forte geada na forração. Em seguida, ficamos 60 dias sem chuva e, quando começamos a colher, trabalhamos por meio dia até vir uma forte chuva de granizo, que arrasou com tudo. Mesmo assim, a colheita pagou os custos de produção. Não tivemos grandes lucros mas, ao mesmo tempo, não nos deu prejuízo. Então resolvi aumentar a área. Pior é que não poderia ficar!”, relembra.

Em seguida, os negócios passaram incluir a produção de queijo. A ideia surgiu após a visita a uma fábrica de queijos, novamente na Itália, através de um amigo admirador da sua produção de maçãs. Porém, não era qualquer queijo que Randon queria produzir. Ele buscou a fabricação do queijo tipo grana, único do gênero no Brasil. Como o leite é a principal matéria prima, Randon importou 130 novilhas dos Estados Unidos, com a promessa de que produziriam 30 litros de leite ao dia. Os animais vieram até o país em dois Boeings. O fato se tornou notícia na época. “Foi muito engraçado ver as vacas descendo do avião. Um chargista fez piada no jornal. Ele desenhou um touro no balcão da empresa aérea perguntando quando chegaria o próximo avião de novilhas”, ri Anselmo.

Em sua propriedade, o gado é confinado em free stalls de alta tecnologia e o leite é retirado em uma ordenha rotativa, que tem capacidade para duas mil vacas ao dia. O cuidado com a qualidade vai desde a atenção aos animais, que não passam por estresses ou pelo contato de pessoas de fora da área de produção, ao bom andamento de todos os processos. O leite é totalmente destinado para a produção da RAR.

As peças de queijo produzidas hoje, de 30 quilos cada, aguardam maturação de, no mínimo, um ano em instalações especiais, compartilhando espaço com outras 15 mil outras peças, que serão comercializadas, a sua maioria, para o mercado nacional. O preço de cada uma delas fica em torno dos R$ 3 mil.

A partir de então, Raul passou para a expansão de outros produtos. Hoje, a empresa também conta com parreirais, de onde saem as uvas que produzem os vinhos RAR, uma parceria com a Miolo. Há, também, o azeite de oliva, através de um convênio com uma empresa do Chile. Mas a intenção é realizar a produção própria. O plantio das oliveiras já começou a e expectativa é de que, em breve, já seja possível extrair o azeite produzido em suas terras.

“Todos os nossos produtos precisam ser de primeira qualidade. A marca também precisa ser muito bem cuidada. Se você vai num supermercado buscar um produto conhecido, você não olha mais nada, somente o nome da marca e confia. Nem olha os outros. Nada da marca RAR pode sair daqui sem ter esta alta qualidade”, ressalta o empresário.

Raul destaca que é desta atenção à qualidade e a visão empreendedora que dão o sucesso ao seu império. “Uma vez eu dizia que não queria todo o mercado de carretas e reboques, mas que cada carreta que rode por aí tenha uma peça produzida por nós. Hoje posso dizer que estamos muito próximos disso. Não são todas as carretas que possuem nossas peças, mas posso afirmar que são quase todas”, orgulha-se. Atualmente, metade do faturamento das empresas Randon é advinda das autopeças.

Tudo é lucro

O aproveitamento inteligente e rentável de todas as etapas de produção é uma das preocupações de Raul Randon. Um exemplo disso está no soro do queijo, que seria descartado. O material é utilizado na alimentação de suínos. Atualmente, a RAR faz o processo de engorda para uma grande indústria multinacional. Todos os meses a empresa recebe milhares de porcos para serem alimentados com o soro e que saem de lá, três meses depois, com cem quilos a mais. Além de dar um fim a este resíduo, a parceria resulta em um faturamento milionário para a RAR ao final de cada ano.

Outra ação realizada é a transformação do estrume do gado em energia para a RAR. Os resíduos viram biogás e o chorume final acaba se tornando adubo na plantação.

Família

A história da família de Raul Randon no Brasil começa com a chegada de seu avô no país, em 22 de novembro de 1888, com destino a Caxias do Sul. “Ele era uma pessoa estudada. O primeiro serviço que arrumou foi na medição de terras. Com este trabalho comprou algumas colônias. E ele era considerado o conselheiro da vila. Se precisasse fazer o serviço de padre, ele fazia”, conta.

A avó teve 18 filhos. O seu pai estudou e aprendeu o ofício de ferreiro. Aos 20 anos, recebeu de presente uma bigorna para seu trabalho. Três anos depois, resolveu mudar-se para Tangará (SC), onde fabricava carretões. Porém, em 1937, sua mãe voltou ao Rio Grande do Sul para uma visita aos parentes de Caxias onde viu que a cidade estava crescendo, com boas perspectivas de prosperidade. “Você sabe que quando uma mulher quer algo, ela insiste até conseguir. Assim, ela convenceu meu pai a retornar para Caxias”, brinca Raul. Na família, em ordem de idade, estão os irmãos Hercílio, Isolda, Raul, Zilá e Beatriz.

Casado com Nilva, Raul Randon é pai de David (hoje presidente geral das empresas Randon), Roseli, Alexandre, Mauren e Daniel. Com exceção de uma de suas filhas que é médica, todos os outros são formados em engenharia mecânica e administração de empresas, e possuem cargos diretivos. Este era o compromisso de todos com seu pai, que faz questão da sucessão familiar na empresa. “Todos os meus filhos se dão bem e trabalham bem. Estas histórias que ouvimos de empresas que faliram após serem passadas para os herdeiros não podem ser consideradas relevantes. Geralmente, são empresas que já estão mal administradas e têm como consequência perdas previsíveis”, comenta.

Apesar das empresas Randon e RAR serem controladas de forma familiar, todo o sistema diretivo e administrativo é liderado por profissionais. “Procuramos sempre o melhor profissional para cada cargo. São pessoas interessadas em fazer carreira dentro da empresa. Aos meus filhos sempre recomendei que fizessem a mesma coisa, que procurassem talentos que querem crescer junto à Randon. Nossos diretores trabalharam em todas as nossas empresas e conhecem o funcionamento de todos os processos”, destaca.

Raul Randon completou 85 anos no dia 06 de agosto de 2014. “Como é bom ter 85 anos. Eu realmente vivi estes 85 anos. Quantos não tiveram o privilégio de chegar a isso?”. Todos as semanas ele comparece à RAR, que ainda está sob seu comando. Também participa ativamente das reuniões periódicas da diretoria da Randon.

Retorno em ação social

A história de vida de Raul Randon beneficia centenas de crianças e jovens das cidades onde suas empresas estão inseridas, através de projetos de cidadania e desenvolvimento social. “Mas eles têm a obrigação comigo de estudar inglês, informática e não repetir de ano no colégio”, afirma.

Para isso, são mantidos os programas Florescer , Florescer Iniciação Profissional, Vida Sempre, Ser Voluntário e programa estadual Rede Parceria Social, através do Instituto Elisabetha Randon.

Em 2013:

O Programa Florescer atendeu 400 crianças e adolescentes de 06 a 14 anos, em seus dois núcleos localizados nas dependências das Empresas Randon. Além disso, acompanhou a aplicação da metodologia Florescer em 7 franquias sociais do Programa, que atenderam juntas, em torno de 1.100 crianças e adolescentes, de 06 a 14 anos e operam nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina , Paraná e São Paulo.

O Programa Florescer Iniciação Profissional – IP continuou com o atendimento a adolescentes que estão entre 14 a 16 anos, funcionando no contraturno escolar.

O Programa Vida Sempre, levou a um público de mais de 100 mil pessoas, a peça teatral “Espetáculo Vida Sempre – a Cultura Roda na Estrada” em 2013.

Foram desenvolvidas várias atividades do Programa Ser Voluntário em escolas parceiras e uma entidade assistencial.

Pelo quinto ano consecutivo, o Instituto participou como entidade âncora do programa estadual Rede Parceria Social. O apoio conta com o repasse de recursos a 16 instituições sociais e também orienta quanto ao direcionamento de estratégias administrativas de cada entidade, além de proporcionar parcerias com outras da rede de assistência para a busca de soluções conjuntas. (Fonte: Instituto Elisabetha Randon – Relatório de Atividades).