Erva-mate: Tradição que impulsiona produção no Estado

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De mão em mão passa a cuia com o mate. A bebida integra os gaúchos e causa curiosidade em quem não está acostumado com um dos símbolos da tradição do Rio Grande do Sul. Todos os anos, são utilizadas 70 mil toneladas somente para fazer o chimarrão no estado, que tem uma produção média da folha verde de erva-mate de 260,8 mil toneladas no período, colocando o RS no primeiro lugar no ranking da produção nacional. “Nosso estado, com toda a certeza, não seria o mesmo sem o mate. É a árvore símbolo do RS e é um produto que nos orgulha muito, fazendo parte de nosso dia a dia e da nossa tradição, e vai além da cultura, pois é um produto com grande relevância social, econômica, ambiental e medicinal”, declara o presidente do Instituto Brasileiro da Erva-Mate (IBRAMATE), Alfeu Strapasson.

No país, a produção também tem grande representatividade no Paraná, com 180,8 mil toneladas ao ano, Santa Catarina, com 69 mil toneladas ao ano e no Mato Grosso do Sul, com 2,4 mil toneladas ao ano (conforme dados do IBGE/2012).

Presidente do Instituto Brasileiro da Erva-Mate (IBRAMATE), Alfeu Strapasson
Presidente do Instituto Brasileiro da Erva-Mate (IBRAMATE), Alfeu Strapasson

 

O Rio Grande do Sul conta com cinco polos ervateiros:

Planalto Missões: Novo Barreiro, Palmeira das Missões, São José das Missões, Boa Vista das Missões, São Pedro das Missões, Dois Irmãos das Missões, Erval Seco e Seberi.

Alto Uruguai: Aratiba, Áurea, Campinas do Sul, Erebango, Erechim, Gaurama, Getúlio Vargas, Severiano de Almeida e Viadutos.

Nordeste Gaúcho: Água Santa, Barracão, Cacique Doble, Caseiros, Coxilha, Ibiaçá, Ibiraiaras, Lagoa Vermelha, Machadinho, Maximiliano de Almeida, Paim Filho, Sananduva, Santo Expedito, Santa Cecília do Sul, São José do Ouro, São João de Urtiga, Tapejara, Tupanci do Sul, Capão Bonito do Sul e Vila Lângaro.

Alto Taquari: Anta Gorda, Arvorezinha, Coqueiro Baixo, Doutor Ricardo Fontoura Xavier, Ilópolis, Itapuca, Nova Alvorada, Putinga, Relvado e São José do Herval.

Vale do Taquari: Boqueirão do Leão, Cruzeiro do Sul, Gramado Xavier, Herveiras, Mato Leitão, Santa Clara do Sul, Santa Cruz do Sul, Sério, Sinimbu, Vale do Sol e Venâncio Aires.

Sendo o principal deles do Alto Vale do Taquari, com maior incidência nos municípios de Ilópolis e Arvorezinha que, juntos, somam quase 40% da produção do RS. Fato que se deve, basicamente, à característica local que é de pequenas propriedades que se identificaram com a erva-mate. Além disso, a região possui solo e clima adequados para a cultura.

Consumo

Em todo o país, não há como duvidar que o consumo está mais concentrado na região Sul. No RS, são nove quilos por habitante ao ano.

No entanto, se essa comparação for feita com todo o Brasil, o número cai para menos de um quilo por habitante ao ano. “Temos o grande desafio de aumentar o consumo no Brasil e no mundo”, salienta Strapasson.

Além da bebida

A partir da obtenção do extrato da erva-mate, o seu uso foi ampliado para além do chimarrão, sendo usada também para medicamentos, cosméticos, corantes, refrigerantes, cervejas, energéticos, doces e suplementos alimentares. São as suas propriedades que dão importância para os mais diferentes usos: é estimulante, antioxidante, cicatrizante, diurético e digestivo.

Exportação

O estado também é o maior exportador de erva-mate e tem como principal mercado o Uruguai. Em menor volume, pelo menos 30 outros países também recebem o produto do RS. “Em relação à comercialização, nosso setor não é uma ilha, e também estamos enfrentando os efeitos da desaceleração da economia. As empresas não estão conseguindo vender os mesmos volumes de outros anos”, diz Strapasson. Segundo ele, as recentes variações de preço são decorrentes de uma escassez de matéria-prima, resultado de anos de preços que não cobriam os custos de produção. “Isso desestimulou o produtor, que buscou outras alternativas para sua propriedade. A partir de 2013, com a retomada do preço, a realidade mudou e os agricultores voltaram a acreditar na atividade. Em pouco tempo, com a melhora na produtividade, ocorreu o equilíbrio entre a oferta e a procura”, diz.

Preço

Conforme o engenheiro agrônomo da Emater/Ascar, Ilvandro Barreto de Melo, a estiagem ocorrida em 2011 e 2012 foi responsável por uma perda de, aproximadamente, 30% na última safra do estado. O fato se deve, especialmente, pela característica perene da planta, que tem colheita em até um ano e meio após o plantio.

Após o período crítico, houve uma normalização climática e os ervais voltaram com sua produtividade normal. “Além disso, foi registrado um incremento pelas melhorias no manejo, que melhorou a produtividade. Outro fator que aumentou a produção foi de muitos ervais que estavam parados terem sido reativados pela mudança no preço”, destaca Ilvandro. Para aproveitar os bons valores pagos, aconteceu, ainda, uma redução do corte da folha para um ano e dois meses, enquanto o ideal seria um ano e meio, ao menos.

A grande oferta atual faz com que os valores pagos aos produtores comecem a cair, novamente. “Um episódio muito semelhante ocorreu na década de 90, quando aconteceram grandes plantios e, consequentemente, passamos 16 anos com preços baixos. Recentemente, tivemos um ano de preços razoáveis, mas que estão em queda, novamente”.

Variação de valor:

Com a valorização, o maior preço pago pela arrouba chegou aos R$ 32 no final de 2013, passando, agora, para uma média de R$ 17. A tendência é que aconteça uma estabilização em torno de R$ 15 a R$ 18.

Já a média nacional, feita entre RS, SC, PR e MS, teve o valor de R$ 23, registrados no início do primeiro semestre de 2014. Agora, encerrou o período com o valor de R$ 17. Os números mostram que a queda não é apenas uma questão local, ocorrendo em todas as regiões de produção no Brasil. Porém, o consumidor final não deve esperar esta baixa no preço tão logo, já que a diminuição dos valores está sendo registrada somente no pagamento ao produtor e não está sendo repassada para as prateleiras. Ou seja, a indústria observa que já houve uma aceitação do valor que vem sendo cobrado e não pretende reduzir seus lucros tão facilmente.

 Perspectivas

Ainda segundo Ilvandro, dentro de um período de até seis anos poderão ser registrados, novamente, problemas com o preço da erva-mate. “À medida que estes novos ervais – que foram implantados de forma descontrolada – começarem a produzir, haverá elevação do volume de folha no mercado e, comisso, uma baixa de preço é esperada”, afirma. “No primeiro semestre deste ano esta queda de valor que ocorreu na folha não se refletiu no preço da prateleira, que ficou estabilizado. Foi o preço pago ao produtor que foi diminuído”, complementa.

Já para Strapasson, as expectativas são positivas. “O setor vem se organizando. Há menos de dois anos criamos o IBRAMATE. A exemplo do Paraguai e Argentina, o Brasil também tem uma entidade que representa o setor. Através do Instituto esperamos poder trabalhar muito na promoção do produto para o Brasil e para o mundo”, ressalta.