Estratégia de combate

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O controle biológico é eficiente para mais de 90% do número de espécies que desenvolvem em soja, trigo e milho

A agricultura exige, cada vez mais, conhecimento e sabedoria para manejo de pragas, plantas daninhas e patógenos.  O agricultor, e todos os segmentos envolvidos com a produção de alimentos, tem a responsabilidade de produzir quantidade e qualidade que atendam às necessidades do ser humano, adotando práticas sustentáveis de manejo de recursos naturais.  A produção de alimentos envolve cada vez mais os compromissos com a água e estes recursos.  Conforme especialistas no assunto, a rastreabilidade com todas práticas de manejos certificáveis já é uma demanda dos mercados mais exigentes da Europa e da Ásia e será rapidamente assumida, também, pelo mercado consumidor local.  “Portanto, a responsabilidade do manejo de pragas, a identificação, o monitoramento de pragas, patógenos, plantas daninhas e os seus agentes de controle biológico natural são exigências do mercado e determinadas por legislação cada vez mais rigorosa”, destaca o engenheiro agrônomo e gerente técnico da Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto – Cooplantio, Dirceu Gassen.

Evolução

Na década de 1970 o Ministério da Agricultura criou novo sistema de pesquisa (Embrapa) e de extensão rural (Embrater), houve significativa evolução em novas tecnologias de produção de grãos.  Nessa época foram desenvolvidos programas de controle biológico e estabelecidas estratégias de manejo integrado de pragas.  O controle biológico de pulgões em trigo tornou-se referência mundial de êxito, o Baculovirus anticarsia para controle da lagarta-da-soja foi inovador, os níveis de dano e de início de controle para pragas forma desenvolvidos nessa época, rica de informação, de conhecimento e de aplicação prática.

Nas décadas de 1990 e 2000, acentuaram-se os problemas de resistência de plantas daninhas a herbicidas, com a constatação de novas doenças em soja como o oídio, o cancro da haste e a ferrugem, as preocupações dos agricultores passaram para a proteção de plantas com agroquímicos.  As pragas estavam sendo um problema menor do que plantas daninhas e doenças.

“O preço baixo, na realidade muito baixo, de inseticidas piretróides e outros, determinaram a adição em misturas, sem critério de seletividade ou de manejo de praga.  A prática de usar um “cheirinho“ de inseticida adicionado ao herbicida na dessecação e nas aplicações de fungicidas se generalizou.  E as consequências não tardaram.  A ocorrência de ácaros, novas lagartas como a Spodoptera cosmióides, a falsa-medideira, Chrysodeixis includens, resistente a inseticidas, a helicoverpa armigera e outras pragas”, relata Gassen. Diante dessas dificuldades voltaram as necessidades de manejo racional, uso de produtos seletivos, níveis de dano e controle biológico natural.

Eficiência

Conforme ressalta o engenheiro agrônomo, o controle biológico existe e é eficiente para mais de 90% do número de espécies que desenvolvem em soja, trigo e milho.  Poucas espécies de lagartas, percevejos e pulgões conseguem multiplicar e desenvolver populações que atingem o nível de praga.   “É muito importante entender a dinâmica populacional das espécies que atingem o nível de dano e que necessitam ser controladas.  Essa dinâmica das populações envolve o conhecimento sobre ciclo biológico, os pontos fracos de cada fase, os locais de sobrevivência, a migração, os inimigos naturais mais importantes em cada fase, para adotar estratégias de manejo”, explica.

Estratégia de combate

O manejo integrado de pragas, plantas daninhas e patógenos de plantas tem a base no “conhecimento aplicado por hectare”.  A solução não está em aumentar a dose ou usar misturas de agroquímicos mais potentes.  Está em conhecer e agir como se fossem batalhas de uma estratégia de combate.  A rotação de culturas, a produção de palha na superfície do solo, o uso de produtos mais seletivos, que matam as pragas e mantém os inimigos naturais, tecnologias de aplicação mais efetivas com menor distúrbio no ambiente e estimular a atividade biológica benéfica são práticas que permitem maior eficiência no controle de pragas e ao mesmo tempo beneficiam os agentes de controle biológico natural.

A produção de alimentos e a adoção de boas práticas agrícolas é uma atividade de pessoas, com conhecimento e com ética de manejo de recursos naturais.   O controle biológico de pragas é um processo natural intenso e presente em todas as lavouras, depende de conhecimento e de treinamento para adoção prática.

VIDA

A atividade biológica (vida) pode ser agrupada em organismos vegetais e em animais.  Estima-se que mais de 99% do volume de biomassa é composta por plantas e apenas 1% por animais e microrganismos.  As cadeias alimentares (tróficas) iniciam com os vegetais. Cada um com espécies herbívoras associadas, como consumidoras, seguida de predadores, parasitoides e microorganismos decompositores de material orgânico.  A diversidade de espécies vegetais é o princípio básico que define o equilíbrio entre populações animais nos ambientes naturais.

A substituições de campos e florestas nativos por plantas cultivadas, seleciona espécies de animais e microrganismos que se alimentam do vegetal disponível. 

PERCEVEJOS E BESOUROS

O exemplo de maior impacto é o cultivo de soja na América do Sul, com 50 milhões de hectares semeadas na mesma época, desde a Argentina até a Amazônia.  São quatro mil quilômetros contínuos, com biomassa de soja disponível para insetos, ácaros, nematoides, fungos e outros organismos que encontram nessa planta o alimento para nutrir-se e proliferar.

Junto com as populações de pragas, desenvolvem os predadores, os parasitoides e os microrganismos, considerados inimigos naturais.

Os predadores caracteriza-se por atacar e matar várias presas durante o ciclo biológico.  Os percevejos e os besouros predadores, por exemplo, consomem dezenas de lagartas, pulgões, ácaros e outros insetos.

Percevejo, Hemiptera: Reduviidae, predando lagarta Helicoverpa sp., praga em soja. (Ernestina, RS.)
Percevejo, Hemiptera: Reduviidae, predando lagarta Helicoverpa sp., praga em soja. (Ernestina, RS.)

 

MOSCAS E VESPAS

Os parasitoides desenvolvem sobre um hospedeiro, onde podem produzir vários indivíduos no ciclo biológico.  As moscas da família Tachinidade, os himenópteros, “vespas”, das famílias Ichneumonidae, Braconidae e outros parasitoides realizam a postura sobre ou dentro do corpo do hospedeiro (lagarta, percevejo…). Uma ou mais larvas desenvolvem dentro ou sobre o corpo, matando o hospedeiro.  Alguns parasitoides de tamanho pequeno, como os do pulgão-do-trigo, realizam a postura dentro do corpo e desenvolvem um indivíduo, matando o hospedeiro.  A lagarta falsa-medideira, Crysodeixis includens, tem um parasito, Copidosoma sp., muito frequente em soja, que pode produzir mais de mil microhimenópteros por lagarta atacada.   Ovos de percevejos são parasitados por Telenomus sp. e outros microhimenóteros.

 

Microhimenóptero parasitoide, realizando postura em ovos do percevejo-marrom, Euschistus heros, praga em soja. (São Gabriel, RS.)
Microhimenóptero parasitoide, realizando postura em ovos do percevejo-marrom, Euschistus heros, praga em soja. (São Gabriel, RS.)

FUNGOS, BACTÉRIAS E VÍRUS

Os microrganismos podem ser agrupados em fungos, bactérias, vírus e outros, causando doença nos insetos atacados.  Eles podem causar epizootias (morte generalizada de pragas)  em lagartas, percevejos, pulgões, ácaros e pragas-de-solo.  O uso frequente de fungicidas para controle de enfermidades em plantas, pode ter efeito supressivo sobre fungos benéficos, que matam pragas.  Com isso, permitir a sobrevivência e a multiplicação de pragas nas lavouras. 

O uso de agroquímicos age sobre pragas, doenças e plantas daninhas consideradas alvo de controle, porém age, também, direta ou indiretamente sobre as populações benéficas.

Fungo, Numuraea ryliei, mumificando lagarta falsa-medideira, Chrysodeixis includens, praga em soja.  (Palmeira das Missões, RS.)
Fungo, Numuraea ryliei, mumificando lagarta falsa-medideira, Chrysodeixis includens, praga em soja.  (Palmeira das Missões, RS.)