Cevada: do Brasil para o mundo

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Grupo com maltarias em vários continentes pretende testar as cultivares nacionais em diversos países

“Na cerveja ou na ração, cevada é mercado certo sempre”, avalia o pesquisador da Embrapa Trigo, Euclydes Minella.

 No último ano, representantes dos principais grupos internacionais de cerveja e malte estiveram em Passo Fundo/RS. Da ABInBev (novo conglomerado da AmBev, que detém 70% do mercado brasileiro), o coordenador do programa global de melhoramento de cevada do grupo, Gary Hanning, veio conhecer a genética Embrapa Trigo e discutir as possibilidades de ampliar a parceria testando o germoplasma brasileiro também em outros países onde opera, como Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Rússia e China.

Outro grupo que avalia a possibilidade de inserção da cevada brasileira em outras partes do mundo é a Soufflet, empresa francesa nova controladora acionária da Malteria do Vale (Taubaté/SP), parceira da Embrapa desde 2000. O grupo conta com maltarias em vários continentes e pretende testar as cultivares da Embrapa em diversos países, como na Índia, onde o clima tropical pode favorecer a adaptação do germoplasma brasileiro.

Na Colômbia, as cultivares da Embrapa estão há dois anos em testes através da parceria com a cervejaria Bavária.

Brasil na 16ª posição mundial

O comércio internacional de cevada é de, aproximadamente, 16 milhões de toneladas. O Brasil ocupa a 16ª posição entre os produtores mundiais do cereal, com média de 300 mil toneladas/ano, mas sobe para o 7º lugar no quesito importações, com a produção nacional suprindo apenas 35% da demanda das maltarias. Na projeção de cenários do relatório Outlook Brasil/Fiesp, a demanda doméstica de cevada deverá crescer 53% até 2022. “O consumo de cevada deverá aumentar a cada ano, principalmente no consumo animal de silagem e ração. Indiferente da qualidade do malte, a cevada tem sido importante alternativa nos momentos de alta no preço do milho e da soja utilizados para alimentação animal. Na cerveja ou na ração, cevada é mercado certo sempre”, avalia o pesquisador da Embrapa Trigo, Euclydes Minella.

O programa de melhoramento de cevada existe há mais de 30 anos no Brasil e agora passa a integrar as principais bases de pesquisa da indústria cervejeira do mundo. A qualidade do material genético brasileiro ampliou a dimensão das parcerias com grandes indústrias de malte no cenário internacional.

Melhoramentos

O melhoramento de cevada no Brasil começou com a Embrapa Trigo, em Passo Fundo/RS, em 1978, focando os trabalhos da pesquisa na resistência a doenças e aumento nos rendimentos. A primeira cultivar lançada foi BR 2, em 1990, a qual se seguiram mais de 20 lançamentos. Essa cultivar representou um marco na história do melhoramento do país em razão da resistência a mancha reticular, predominante na época, associada ao potencial produtivo e a ampla adaptação. Outro resultado destaque da pesquisa foi a cultivar BRS 195, lançada em 2001 e dominante no mercado por mais de dez anos. O porte anão e o aumento no rendimento em 1.000 quilos por hectare (kg/ha) representou uma verdadeira revolução na cultura que enfrentava uma fase de declínio em razão das perdas frequentes por acamamento devido à altura excessiva das cultivares em sistema de plantio direto. A disponibilização de cultivares para o sistema irrigado (BRS 195, BRS Sampa e BRS Manduri) potencializou a ampliação da área de cultivo também para as regiões centro-oeste e sudeste. Com o aporte da biotecnologia através da cultura de anteras, foi possível aprimorar mais rapidamente as cultivares melhorando a qualidade de malte, tornando a cevada brasileira competitiva também em relação ao produto importado.

O programa de melhoramento de cevada na Embrapa é conduzido em parceria com as indústrias de malte do país, responsáveis tanto pelo aporte de recursos na pesquisa e avaliação da qualidade, quanto pela inclusão imediata das cultivares no sistema produtivo. Como toda a safra brasileira é de cevada para malte cervejeiro com a produção pré-contratada, existe a negociação direta entre produtor e consumidor, garantindo liquidez de mercado. “A cadeia produtiva da cevada usa, em média, quatro cultivares a cada safra visando produzir blends específicos de malte em atendimento às demandas de qualidade das cervejarias. No momento, estão nas lavouras da Região Sul as cultivares da Embrapa BRS Cauê, BRS Elis e BRS Brau. A demanda da indústria é o lançamento de uma nova cultivar a cada dois anos para substituir uma das que estão no mercado”, explica Minella. Através das parcerias, desde 1995 as cultivares Embrapa ocupam pelo menos 70% da área de cevada cervejeira contratada, semeada no Brasil.

Além do aumento no rendimento médio nas lavouras comerciais de cevada em mais de 30 kg/ha/ano, as cultivares da Embrapa também foram responsáveis pelo aumento de 10% em grãos de primeira (classe melhor remunerada pela indústria cervejeira), redução de 2% no teor de proteínas e 3% de aumento no teor de extrato de malte (melhor qualidade e maior rendimento na cervejaria).

(Fonte: Embrapa Trigo)