Aviação agrícola: Segunda maior frota do país está no RS

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Eduardo Rocha Pereira - Piloto agrícola e sócio-proprietário da Agrofly Aviação Agrícola
Eduardo Rocha Pereira – Piloto agrícola e sócio-proprietário da Agrofly Aviação Agrícola

No Rio Grande do Sul, assim como em outros estados brasileiros, a aviação agrícola pode ser uma excelente ferramenta na busca de maior produtividade. O Estado possui a segunda maior frota de aeronaves agrícolas do país, com 397 aviões registrados. Fica atrás do Mato Grosso, que possui 413 aeronaves e logo à frente do Paraná, que registra um total de 252 aviões agrícolas. 

Ao mesmo tempo, o RS é o estado que possui o maior número de empresas do ramo: 78. Seguido de São Paulo (35), Mato Grosso (28) e Paraná (17). “Isso denota que no RS a aplicação aérea é um serviço terceirizado (prestado por empresas especializadas), diferente do MT que, embora possua a maior frota, tais aeronaves são particulares e operam nas lavouras de seus proprietários (empresários rurais)”, diz o engenheiro agrônomo, instrutor na formação de pilotos agrícolas, Marcelo Drescher. Segundo ele, o fato de no RS poucos empresários rurais possuírem aeronaves é explicado pelo tamanho médio das áreas, que não justificam a posse de uma aeronave. Historicamente, sempre foi melhor econômica e tecnicamente contratar uma empresa de aviação, a um custo relativamente baixo, do que manter uma estrutura capaz de realizar aplicações aeroagrícolas. 

Drescher informa que, hoje, a realidade altera-se um pouco pois, com a redução de custos e o valor baixo de uma aeronave usada (em torno de R$ 350.000,00), em relação a um equipamento terrestre autopropelido (R$ 450.000,00 ou mais) muitos produtores estão adquirindo aviões agrícolas. “Uma avião agrícola novo, totalmente equipado e pronto para o trabalho, custa em torno de R$ 850.000,00, financiável. O que, de imediato, nos remete ao raciocínio de que, comparado a um equipamento terrestre autopropelido, que pode chegar a R$ 700.000,00, o avião apresenta vantagens e se tornou atrativo a inúmeros produtores”, exemplifica. 

Proprietário de uma empresa de aviação agrícola e também piloto, Eduardo Rocha Pereira, destaca que, ao mesmo tempo, a característica do RS é de uso de aviões por intermédio de contratação das empresas de aviação. Ele destaca que, além do cumprimento das normas reguladoras, há a vantagem de evitar que o produtor tenha que se envolver com aspectos ligados à pulverização, tais como o treinamento de pessoal, a manipulação de defensivos agrícolas, cuidados ambientais, manutenção de equipamentos, etc. Em termos de área aplicada, estima-se que 25% das lavouras comerciais utilizem a aviação agrícola como ferramenta ao combate às pragas. Em todas as regiões do estado existem empresas de aviação agrícola prestando serviços. “À medida em que os custos da lavoura estão sendo melhor analisados pelos produtores, a aviação agrícola tende a aumentar ainda mais”, ressaltou Rocha.

Quem são os produtores que estão buscando a ajuda da aviação agrícola para suas lavouras?
Os produtores que utilizam a aviação agrícola são os que se valem de alta tecnologia em suas áreas de cultivo e que possuem informação de qualidade à sua disposição. “Seja através da assistência técnica ou da busca individual, o produtor que almeja auferir lucros cada vez maiores sabe que a aviação agrícola é uma poderosa ferramenta”, salienta o instrutor. 
O tipo de cultura também determina o uso mais ou menos intenso da aviação. Na cultura do arroz, por exemplo, só não se pode colher com avião, pois o restante das operações necessárias podem ser realizadas com tal tecnologia: semeadura, adubação em cobertura, combate a invasoras, fungos e insetos. Desta forma, nas regiões arrozeiras do Estado, o uso dos aviões é, certamente, maior do que em apenas 25% das áreas. Já nas regiões de cultivo de soja, a possibilidade de uso de equipamentos terrestres reduz a utilização do avião agrícola, em face do desconhecimento do produtor em relação a aviação, da posse de equipamentos terrestres ou por pura e simples opção.

Benefícios

Alto rendimento – Um avião agrícola, nas condições médias do RS, pode aplicar 70 ha por hora (o que é bem mais do que 25 ha por hora, rendimento de um autopropelido bem operado). Esse ganho de 70% na velocidade de aplicação permite que o combate seja feito rapidamente, no momento certo, e que os danos causados pelas pragas cessem com brevidade, reduzindo as perdas.

Excelente capacidade de penetração e deposição na cultura – Uma aplicação aérea, por se valer das forças do ar, e de uma tecnologia capaz de produzir gotas pequenas e com tamanho controlado, permite que tais gotas se depositem por toda a estrutura do vegetal (desde as folhas inferiores às superiores) de modo homogêneo, permitindo assim o combate rápido e eficaz à moléstias que necessitam que as folhas inferiores sejam atingidas (ferrugem da soja, por exemplo).

Permite aplicação com solo encharcado – Na hipótese da ocorrência de fortes chuvas, que encharcam o solo, impedindo que equipamentos terrestres efetuem seu deslocamento, o avião é a solução, por realizar a deposição sem tocar o solo ou a cultura.

O avião não amassa a cultura – O avião não se desloca sobre a área e não entra em contato com a cultura, em sendo assim não a amassa, evitando prejuízos ao produtor. Os prejuízos resultantes do amassamento, em aplicações terrestres muito bem realizadas, são da ordem de 1,5 sacos por hectare, em média. Todavia, necessita-se agregar a este custo de não colheita (devido ao amassamento) o custo dos insumos ali aplicados e que foram igualmente perdidos.
 
EXEMPLO DE PERDA POR AMASSAMENTO – Um cálculo simples demonstra que, somados todos os valores, esse custo é da ordem de 10% do custo de produção da lavoura, o que pode perfazer uns R$ 100,00 por hectare. Este valor, por si, já pagaria, pelo menos TRÊS aplicações aéreas. 

O avião não transporta vetores – Sabe-se que determinadas moléstias são transferidas de área para área graças ao contato dos equipamentos, que se deslocam por áreas contaminadas. O avião não entra em contato com a cultura, em sendo assim não é vetor de contaminação.

Profissionais treinados – Todo o pessoal envolvido com a aviação agrícolas é altamente treinado. Ao contratar uma empresa de aviação para a pulverização de sua área o produtor leva “no pacote” uma equipe treinada para melhor aproveitamento dos produtos, melhor controle de dosagens, cuidados com o ambiente, desenvolver o trabalho no mínimo espaço de tempo, realizar uma aplicação com monitoramento contínuo das condições ambientais.

Aplicação de precisão – A tecnologia de DGPS já é obrigatória na aviação agrícolas há duas décadas. Desta forma, a aplicação realizada por aeronaves tem alta precisão e possibilita o monitoramento posterior, por parte do contratante, da área realizada, dosagens aplicadas e uniformidade da aplicação.

Menor risco de contaminação ambiental – Por ser uma atividade realizada por profissionais treinados (conforme exige a legislação vigente), por ser uma pulverização com menores volumes, por ter constante acompanhamento técnico e por estar submetido a exigências legais que nenhuma outra forma de pulverização possui (tal como a necessidade de descontaminação em pátio apropriado) a aviação agrícola é uma atividade que impacta menos o ambiente do que a aplicação terrestre. 

Exemplo: 
Para a aplicação de produtos numa área de 1000 hectares:
Avião – 15  litros de água por ha  x 1000 hectares =    15.000 litros de água 
Equipamento terrestre  – 120 l/ha x 1000 hectares = 120.000 litros de água

“No equipamento terrestre contamina-se 105.000 litros de água a mais. Isso é impacto ambiental imediato”, destaca Drescher.

Restrições

Tamanho e conformação da área: áreas pequenas, com muitos obstáculos e limites irregulares obrigam o piloto à realização de muitas manobras fora da área para a execução de sobrevoos muito curtos durante a aplicação. Deste modo, o custo operacional eleva-se, encarecendo sobremaneira a aplicação.

Condições atmosféricas adversas: tais como vento excessivo ou temperatura elevada, associada à baixa umidade relativa. Embora tais condições atmosféricas adversas impedem, de igual modo, uma aplicação com equipamento terrestre.

Tipos de aeronaves
As aeronaves utilizadas têm capacidade variada, em função do uso ao qual se destinam. Entre os aviões médios (com reservatório para até 900 litros) estão o Piper Pawnee, Cessna AG-Wagon, Ag-truck e o Ipanema (uma aeronave nacional, fabricada pela Embraer, desde 1971). 
Dentre as aeronaves de maior capacidade, de 1000 a 4000 litros, existem o Air Tractor e o Trush, aviões importados de ampla utilização em áreas extensas tais como as encontradas no Mato Grosso, Goiás, Oeste Baiano ou Norte de Minas Gerais. Nesta categoria de aeronaves temos ainda o Grumann, um biplano agrícola ou o Dromader, aeronave de grande porte mas de pouca utilização.

Os pilotos agrícolas são profissionais que recebem treinamento específico para a realização da pulverização aérea. Treinados em escolas homologadas para esse fim, estes profissionais detém habilidades superiores ao voo sob condições de alto risco e formação especializada para a realização de aplicações de sólidos e líquidos em áreas agrícolas. Além disso, é preciso o mínimo de 370 horas de voo. 

PULVERIZAÇÃO

O engenheiro agrônomo e professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, Walter Boller, conversou com a Revista Destaque Rural a respeito da pulverização aérea e alguns de seus detalhes técnicos. 
 
Destaque Rural – Quando a pulverização aérea é indicada?

Walter Boller – É indicada para áreas de lavouras maiores, com poucos ou nenhum obstáculos físicos (como árvores, linhas de transmissão de energia elétrica) onde estes possam ser contornados e/ou resguardados com certa facilidade. Também não deve ser utilizada próximo a áreas residenciais e manter certa distância até os corpos d’água.  Seu uso pode ser tanto em aplicações antes da instalação da lavoura (herbicidas), como na semeadura, distribuindo sementes a lanço e durante o ciclo das culturas distribuindo fertilizantes como uréia. No tocante à distribuição das sementes, a aviação agrícola pode ser utilizada em um processo conhecido por sobre-semeadura, quando sementes de uma nova cultura são distribuídas sobre a cultura anterior ainda em fase de pré-colheita e com a queda das folhas desta, as sementes são cobertas e germinam assim que encontram condições de umidade adequadas. Isso permite, por exemplo, obter uma pastagem em desenvolvimento inicial no momento da colheita da cultura anterior, antecipando a disponibilidade de forragem para animais. Esta alternativa também pode ser utilizada no sistema plantio direto para proporcionar cobertura vegetal sem revolvimento do solo. Durante o ciclo das culturas, a aviação agrícola proporciona serviços de tratamentos fitossanitários, principalmente em aplicações de inseticidas e de fungicidas.

DR – Qual abrangência deste tipo de pulverização em nosso estado e na região de Passo Fundo?

WB – Embora a aviação agrícola também possa ser utilizada para aplicar herbicidas, na região de Passo Fundo um uso interessante desta ferramenta é nas aplicações de fungicidas e de inseticidas, especialmente quando as culturas já se apresentam em avançado estádio de desenvolvimento (por exemplo, soja após a floração ou milho, após 6 a 8 folhas), quando a entrada de equipamentos terrestres causa danos por amassamento, que podem variar de 0,5% até 5% da produção dependendo da cultura e de algumas condições do campo. Esta diferença no amassamento das culturas pode justificar economicamente o uso da aviação agrícola e ainda contribuir para o pagamento dos produtos que serão utilizados. Se corretamente utilizada a ferramenta de aviação agrícola proporciona resultados iguais ou melhores que a pulverização por via terrestre. 

A abrangência de áreas pulverizadas com aeronaves na região norte do RS, via-de-regra se limita ás grandes culturas, como aveia, cevada e trigo no inverno e milho e soja no verão. Isso sempre em propriedades maiores e que ofereçam também uma adequada infraestrutura como uma pista de pouso, suprimento de água, acesso para veículos. 

O avião distribui os produtos no campo em faixas contíguas, indo e voltando, deslocando-se a velocidade em torno de 180 km/h (3000 m/min). A cada final de percurso faz uma manobra denominada balão, que demora em torno de 30s (tempo em que o avião se deslocaria por 1500 m e pulverizaria em torno de 2,5 hectares).  Então, fica claro que quanto mais longos os “tiros” menor será o número de balões e menor o tempo perdido. Por isso o seu uso em pequenas propriedades somente se viabilizaria com o trabalho em lavouras de vários proprietários ao mesmo tempo.

DR – Quais equipamentos são utilizados?

WB – São utilizados dois equipamentos: as barras com bicos e pontas de energia hidráulica e as barras com bicos rotativos. As pontas de energia hidráulica operam com volumes de calda em torno de 20 até 40 L/ha e os bicos rotativos, que produzem gotas mais finas e uniformes pulverizando entre 5 e 15 L/ha de uma calda normalmente adicionada de óleo vegetal (baixo volume com adição de óleo). Via-de-regra, as primeiras são mais utilizadas para herbicidas e as segundas mais para inseticidas e fungicidas, embora haja possibilidade de ajustes para ambas aplicarem os três grupos de produtos.
No caso da distribuição de sólidos (sementes e fertilizantes) usam-se o difusor conhecido como pé-de-pato, e mais recentemente um equipamento conhecido como “Swathmaster”, que propicia maior largura de faixa e uniformidade.

Marcelo Drescher – Engenheiro agrônomo e instrutor na formação de pilotos agrícolas
Marcelo Drescher – Engenheiro agrônomo e instrutor na formação de pilotos agrícolas

DR – Quem se interessar por este tipo de pulverização, quem deve procurar?

WB – Deve procurar as empresas prestadoras de serviços de aviação agrícola e caso não encontrem na sua localidade, entrar em contato com o SINDAG (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola). Ver no site:  http://www.sindag.org.br.

 

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